Viva a maionese – revista piauí

“Astros”, destaca a lousa branca afixada na porta do camarim dos Estúdios Globo. O espaço estava reservado para um grupo de atores do remake de Vale Tudo: Matheus Nachtergaele, de filmes como O Auto da Compadecida, Cidade de Deus e Central do Brasil; Luís Melo, que talvez tenha uma estante em casa só para acomodar seus muitos prêmios no teatro; Leandro Léo, presente na tevê desde criança; o galã Leandro Lima, capa da atual edição da GQ Brasil – e Cesário Candhí, em sua primeira participação em uma novela.

Eram dias de agitação: eles se preparavam para gravar uma das sequências de capítulos mais famosas da versão original da novela, na qual a vilã Odete Roitman (hoje Débora Bloch) manda o amante (Lima) envenenar a salada de maionese na cozinha da Paladar, a empresa culinária da mocinha Raquel (Taís Araujo), com o propósito de arruinar sua reputação. 

Para o estreante Candhí, a euforia era dupla. Aos 58 anos, mas com quase quatro décadas de carreira no teatro na Baixada Fluminense, ele fora cadastrado para testes em sua região por um produtor de elenco e, tempos depois, escalado para a novela no papel do segurança Ademir, que trabalha na Paladar e é engambelado pelos vilões da história. “Quando vi o Matheus Nachtergaele entrando, eu travei”, diz. “Queria ficar olhando, pedir uma foto.” 

Nachtergaele logo quebrou o gelo ao lhe dar um toque durante um ensaio. Depois de ser muito perturbado por dois capangas a serviço de Odete Roitman, o personagem deveria dizer: “Tô falando que a noite tá agitada!” Para quem, como Candhí, vem do teatro, as falas pausadas são mais usuais. “Faz essa fala direto, que no audiovisual flui mais”, aconselhou o colega, que depois lhe deu uma piscadela quando ele acertou o tom, em sinal de aprovação. “Eu sorri e ele, muito carinhosamente, falou ‘é esse sorriso que o diretor quer’. Então eu fiz a fala sorrindo e assim foi ao ar. Achei muito especial a generosidade dele.”

Esse foi um dos momentos a serem lembrados na “Hollywood brasileira”, como ele define o território global em Curicica. “Eu tô almoçando, olho para o lado e vejo o elenco da novela das seis almoçando ao meu lado, no mesmo espaço, sabe?”, conta. 

As cenas com Candhí foram ao ar entre 11 e 14 de agosto, com boa audiência. No X (antigo Twitter), espectadores caíram matando no segurança Ademir, que pega no sono no trabalho e cai no papo dos vilões. Um gaiato escreveu: “Vigilante, não. Cochilante.” Outro ironizou: “Coitado do segurança. Não pode nem dormir em paz no trabalho.” O auge foi quando o jornalista Chico Barney disparou para seus mais de 1 milhão de seguidores: “Meu Deus, esse segurança é um imbecil!” Candhí amou e compartilhou o comentário em outra rede social: “Chico Barney falando do meu personagem no X. Falando mal, mas falando.”

Logo sites dedicados a notícias da Baixada noticiaram a participação. O ExtraVip disse que o ator “se prepara para alçar grandes voos nas telas da TV”.

Candhí nasceu na Paraíba, em 1966. É filho de um agricultor e de uma dona de casa. Na adolescência, entrou para um grupo de teatro da igreja católica que frequentava. Trabalhava em montagens que representavam histórias como o nascimento e a crucificação de Cristo. Sempre quis ser ator, mas aos 19 anos, já morando no Rio, foi trabalhar como pedreiro. Passou dez anos na construção civil, mas conciliou a atividade com aulas de teatro. Tornou-se animador cultural de escolas públicas e atualmente trabalha no Colégio Estadual Duque de Caxias, que fica na via principal do município onde mora, a Avenida Nilo Peçanha – onde, como contou à piauí, houve comoção com suas aparições na Globo (ele antes já havia feito uma participação no especial Falas Negras, em 2024, e está escalado para a série Arcanjo Renegado). Em sua função, dedica-se à garantia do acesso à cultura em ambiente escolar. “Muitos alunos nunca tinham ido ao teatro e, lá, eles aprendem a se expressar”, ele diz. 

Depois de alguns espetáculos na companhia em que passou a atuar e no colégio onde trabalhou, fundou a Cia. de Arte Popular, em 1997, motivado sobretudo pela ideia de ocupar espaços públicos. Viajou à Paraíba para buscar um cordel que sua mãe costumava mencionar e trouxe de lá as “quatro folhinhas esfarelando, amareladas”, que adaptou para a peça A incrível peleja de Simão e a Morte.

Todas as peças da companhia são feitas sob a premissa de caber no teatro e na rua. Passados mais de vinte anos desde sua saída do ramo da construção civil, ele retornou aos canteiros para apresentar a peça Lixo no lugar errado, tô fora!, que abordava com didatismo temas ligados à educação ambiental. As apresentações reuniam grupos de cerca de 250 trabalhadores em obras, entre 2017 e 2019 – especialmente aquelas que colocaram acima as estruturas do BRT na Avenida Brasil. “Chegávamos lá pelas 5h30 da manhã. Procurávamos um ponto de energia, fazíamos maquiagem, cenário”, explica o ator. Por volta das 7h30, o grupo começava a apresentação. 

A chegada à tevê foi uma surpresa em sua vida. “Parecia que tudo era muito distante, que a televisão e o audiovisual não eram para a gente [da Baixada]. Na minha juventude, tudo era muito distante, parecia que a gente estava na China.” 

Por esse motivo, não tinha olhos para o que não fosse teatro. No entanto, ele reforça que, apesar da longa trajetória, “parece que a gente precisa da chancela da tevê para que as pessoas reconheçam o nosso trabalho”. Gostinho que ele está sentindo agora.

Candhí assistiu à sua estreia em Vale Tudo ao lado dos pais, que moram no andar de baixo de sua casa, no Complexo da Mangueirinha. “Eu olhava mais para meu pai do que para a televisão.” No seu Instagram, postou as pizzas gigantes distribuídas ao elenco, uma sacola com seu nome escrito em fita crepe e suas selfies com os atores Renato Góes, Leandro Firmino, Leandro Lima e Luís Melo. Mas não com Nachtergaele. “Fiquei tímido na frente do ídolo.”



Piauí Folha

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