Paraty é uma cachaça. Tudo é literatura, arte, happening, mesa, música, resenha. Mas pra curtir pelo menos 1% dos mais de 1.256.791 eventos que ocorrem simultaneamente durante a Flip, é preciso andar. E muito. Por isso, me distanciei um pouco dos ratos de biblioteca comovidos com os livros ostentação da Rafa Kalimann, dobrei a meta do pace e, em prol deste inestimado diário, perambulei errante pela cidade histórica. Afinal, é errante que se aprende.
Quarta-feira, 30 de julho
13h – Cheguei de véspera e presenciei a cidade histórica ainda se aprumando para o evento. Tapumes, caixas, marteladas e ferragens para todo lado. Tem que ser muito sagaz para conseguir trabalhar nessas pedras que parecem ter sido colocadas por força de um lobby de fisioterapeutas mal-intencionados.
17h – A maré encheu e, ilhado na parte mais alta da calçada, precisei molhar o pé numa corrente d’água que beirava os 12ºC. O jeito para ficar menos irritado com a meia molhada fazendo glosh glosh glosh dentro do tênis foi emular a banda Eddie (tomar banho de cana quando a maré encher…). Bem, não foi pra tanto. Rolou apenas um negroni.
18h30 – Mal cheguei nas festas e já me confundiram com algum artista negro. Isso é irritante. Tem gente que não pode ver um negro aleatório que já confunde com algum negro famoso aleatório. Mas há tempos eu parei de me estressar com isso. Decidi que serei todos os artistas negros que acharem que eu sou. Por enquanto, sou o Jonathan Azevedo.
19h – Fui para a frente da igreja da Santa Rita e fiz uma oração para que a água que veio na minha canela durante a cheia estivesse livre de qualquer peste. Ouço ao longe o Arnaldo Antunes se apresentando na praça principal. Ele não cantou O pulso (Peste bubônica, câncer, pneumonia/ Raiva, rubéola, tuberculose, anemia…). Achei bom agouro.
Quinta-feira, 31 de julho
9h30 – Chego ao Centro Histórico e logo de cara vejo poetas por todos os lados. Todos os lados. É curioso como não existe discussão sobre qual é o limite da poesia. A poesia é incancelável. A poesia resiste a todas as intempéries, oscilações econômicas, taxações e ameaças de uma Terceira Guerra Mundial. Não há Lei Magnitsky que acabe com a poesia. A única coisa capaz de acabar com a poesia, de dilacerar a poesia mesmo, é ela própria.
11h – A cidade está cheia demais. Mal consigo andar pelas ruas sem esbarrar em alguéns. Agora entendi o porquê da cidade ainda manter esse calçamento sem sentido. É um controle de multidões. Um quebra-molas de gente.
13h – Me perguntaram se eu era o Tony Garrido. Eu era.
14h – Gosto muito dos aspirantes a escritor. Eles são muito mais preocupados com a própria imagem do que os escritores estabelecidos. Pode notar. É a gênese de uma persona que se quer ser. E isso resvala até no andar. Na Flip, o aspirante a escritor anda como se as pedras fossem as teclas de uma máquina de escrever.
18h – A última mesa da Esquina piauí + Netflix do dia, com a Ana Maria Gonçalves, ocorreu com todos chegando e saindo da casa com os pés secos. Depois de alguns dias de água tomando as calçadas, esse deu uma trégua. Tenho plena certeza de que, além de tudo o que já foi dito e escrito, Gonçalves também tem o poder de controlar as marés.
21h – Passei por um grupo de maracatu de maioria branca. Gostei da inclusão social.
23h30 – Depois de uma noite de festas homéricas (de Homer Simpson mesmo, no quesito bebida) e que terminou com um mega after na Praia do Pontal, posso afirmar com convicção, ao contrário do que nós, pobres millennials, temos propagado por aí: os jovens, senhoras e senhores, continuam jovens.
0h30 – Retornei à pousada e vi no contador de passos do celular que eu dei mais de 15 mil passos. Isso é o dobro da meta diária que hoje é considerada saudável. Comemorei com um refrigerante.
Sexta-feira, 1º de agosto
8h30 – Percebo que estou caminhando pela cidade como se as pedras fossem máquinas de escrever.
10h – Com o sol quente, vi muitos autores voltando das praias com a pele empanada. Intelectual vai à praia sim, Paulo Francis. E bebe também. Não exatamente nessa ordem.
11h – Hoje me perguntaram se eu era UM músico e eu disse que era. Só isso mesmo, UM músico. A galera já desistiu até de tentar adivinhar.
14h – Para evitar filas, eu e a minha conge (que também positivou para jornalismo) almoçamos um sanduíche superfaturado. Enquanto comíamos, passou por nós uma família gringa de pele quase pururucada pelo Sol. Mas ao contrário dos reles mortais, eles estavam sendo levados em uma charrete. Vi aquela cena toda se passando em meio aos prédios de arquitetura colonial e fiquei chocado de constatar como os resquícios da escravidão ainda estão entre nós. Principalmente por causa do cavalo.
17h – Percebo que consegui machucar o céu da boca de alguma forma ainda não identificada — até que lembro do sanduíche. Desconheço ser humano que tenha conseguido se machucar com uma fatia de pão sourdough. Alô, Guinness World Records!
19h30 – Após uma mesa arrasa-quarteirões (é figura de linguagem, Iphan) na Esquina piauí+Netflix, Valter Hugo Mãe se instala no jardim da casa para dar autógrafos. O escritor foi ovacionado no estilo rockstar, com direito a jogral da torcida. Paraty não viu um português ser tão paparicado desde os tempos de Dom Pedro.
9h – O dia começou lindo, com Sol, céu azul e ninguém me abordando achando que sou qualquer artista negro, graças a Deus.
10h – Comemorei cedo demais. Hoje sou o Lázaro Ramos. Mais precisamente em Ó Paí, Ó.
12h – Hora do almoço com os colegas em um restaurante. Enquanto esperamos nossos pratos, João Felipe Carvalho, meu nobre parça de República Checa (apelido carinhoso que dei à equipe de checagem da piauí), está ao meu lado. Noto que ele está exasperado com um barulhinho intermitente de uma colher batendo numa xícara. Não entendi a exasperação até que ele me chapuletou: “Você já viu Corra?”
13h – Sinto uma mão gélida no meu braço. Uma senhora branca da mesa ao lado me pergunta se o shot de água com gás que acompanhou o meu espresso era cachaça. Eu respondo para a senhora, branca, que sim, era cachaça. E ela continuou com aquela mão gelada, branca, no meu braço. João Felipe tinha razão.
16h – “Paraty é muito importante para a natalidade brasileira”, lançou Valter Hugo Mãe. Ele acaba de inventar o Paratynder.
17h – Sempre que eu passo na Casa Queer ou na Casa Favela, tenho vontade de erguer no centro dessa cidade uma estátua da Giovana Xavier.
17h30 – Balanço final: 20 mesas, 40 loucos de palestra, 33 km percorridos, 5 litros de café, dois pedidos para criar uma banda, uma fisioterapia agendada e zero morangos do amor. Uma Flip sem flop.