Unânime (quando unanimidade ainda existia)

E então eles começaram a latir. Homens e mulheres de certa idade, talvez inofensivos em outras circunstâncias, imitavam cães furiosos à medida que nós passávamos. Estavam tomados por aquele senso de justiça mal posicionado que, anos mais tarde, levaria aposentados e donas de casa a invadirem lugares públicos clamando por um golpe de Estado. Alguns levavam cartazes com a onomatopeia de ordem escrita em letra de forma, caso alguém não estivesse entendendo bem o recado: “Au, au, au.”

Lúcia não alterou sua marcha. Enquanto o pelotão nos seguia pela Praça Dante Alighieri (e onde mais almas penadas se sentiriam tão à vontade?), ela me explicou, em voz baixa, o que estava acontecendo, para que eu também não me alterasse. Seguimos – nem tão devagar que parecesse afronta, nem tão depressa que parecesse medo, conforme sugeriu o senador Pinheiro Machado para o cocheiro que o conduzia quando ambos se viram diante de uma emboscada. Caminhando ao nosso lado, o marido de Lúcia não precisou se esforçar muito para manter a fleuma. Luis Fernando Verissimo – que morreu hoje, aos 88 anos – nunca foi homem de manifestar emoções fortes em público e não seria diferente ali.

Ali era a Feira do Livro de Caxias do Sul, um dos muitos eventos literários que se espalham pelo interior gaúcho. A data, 3 de outubro de 2015. Não era a primeira vez que eu acompanhava LFV em um encontro com seus leitores. Fui editora de suas colunas no jornal Zero Hora e tinha algum convívio com a família. (Pausa ostentação: quando minha filha nasceu, em 1998, ganhei um pacote de sapatinhos vermelhos tricotados por dona Mafalda, viúva do romancista Erico Verissimo, o pai de Luis Fernando.) Meu papel, nessas ocasiões, era bater bola com o convidado de honra, fazendo perguntas que ajudassem o cronista a driblar, pelo menos por alguns minutos, a timidez mais famosa – e eloquente – do Brasil.

Em geral, a coisa demorava um pouco para engrenar. Eu perguntava, e a resposta vinha curtinha, no tom de voz mais baixo possível. Os assuntos variavam: o novo livro (naquele ano, As mentiras que as mulheres contam, um dos mais de oitenta que ele publicou desde a estreia, em 1973, com O popular), o cardápio político da semana, as agruras do Internacional (o campeão gaúcho de 2015 não estava se saindo muito bem no Brasileirão). Aos poucos, LFV se soltava, e o milagre acontecia. A ironia precisa das crônicas – repletas de sutileza, inteligência e erudição, mas sem qualquer sinal de pose ou arrogância – se fazia presente ao vivo também, como todos esperavam. Depois de uma hora, a plateia saía do auditório em estado de graça – nos dois sentidos. Não foi diferente naquele dia, apesar dos aloprados, do lado de fora, tentando atrapalhar a conversa.

Em outubro de 2015, a palavra “bolsonarismo” ainda não havia sido incorporada ao léxico nacional, mas a direita performática já aquecia os músculos para o show de horrores dos anos seguintes. No final daquele mês, parlamentares de oposição entregariam ao deputado federal Eduardo Cunha – então presidente da Câmara – o pedido de impeachment de Dilma Rousseff. Meses antes, o também deputado Jair Bolsonaro havia dito na Casa que não estupraria a colega Maria do Rosário porque ela “não merecia”, e Olavo de Carvalho tinha acabado de lançar seu canal no YouTube. O país estava inquieto como nunca, como sempre. Em agosto, Verissimo publicou uma crônica cutucando os manifestantes que queriam derrubar Dilma, Lula, o PT e “tudo isso que está aí”. Uma multidão enraivecida que ainda não havia encontrado seu líder. Veio dessa crônica a inspiração para a performance na praça:

“Houve um tempo em que os cachorros corriam atrás dos carros. Era uma cena comum: vira-latas perseguindo carros, latindo, como se quisessem expulsar um intruso no seu meio. Às vezes viam-se bandos de cães indignados, perseguindo carros que passavam, e dava até para imaginar que um dia conseguiriam alcançar um, dos pequenos, pará-lo, cercá-lo e… E o quê? Comê-lo? Nunca ficou claro o que os cachorros fariam se alcançassem um carro. Era uma raiva sem planejamento. (Hoje, a cena de cachorros correndo atrás de carros é rara. Os cachorros modernizaram-se. Renderam-se ao domínio do automóvel. Ou convenceram-se do seu próprio ridículo.)” (O vácuo, 19 de agosto de 2015)

LFV estava acostumado a reações epistolares em tom pouco amigável. Na época do governo Collor, recebeu cartas do tipo: “Nós sabemos onde sua mulher vai fazer compras, onde seus filhos estudam, se cuida comunista sem-vergonha.” Quando uma gripe forte quase o matou, em 2012, recebeu mensagens lamentando a recuperação. A novidade não era a falta de pudor ou civilidade, mas o teatro, a presepada em praça pública, a combinação (e talvez até o ensaio dos latidos) via WhatsApp. Na minha memória, o episódio permanece como uma espécie de marco zero particular, a primeira manifestação “presencial” (outra palavra que ainda não havia sido incorporada às conversas do dia a dia) da era política que se iniciava. Nunca tinha assistido a um ataque desse tipo – coordenado, coreografado – contra um escritor, e o fato de o alvo carregar um sobrenome que os gaúchos aprendiam a admirar desde que começavam a ler tornava tudo ainda mais insólito. Num estado que costuma se jactar de glórias reais e imaginárias, os Verissimo sempre foram motivo de orgulho e respeito, até mesmo por parte dos adversários políticos. Pelo menos era o que eu acreditava até aquele dia.



Em meados dos anos 1970, quando comecei a ler jornais, o porto-alegrense LFV já era um cronista diário consagrado. Meus avós liam, meus pais liam, meus irmãos e eu líamos. Nunca se ouviu alguém dizer “não entendi a crônica do Verissimo de hoje” ou “hoje ele estava sem assunto”. Seu talento para se comunicar com leitores de todas as idades e repertórios era inigualável, mas a vocação para escrever, que hoje nos parece óbvia, havia demorado um pouco a se manifestar (não devia ser fácil medir-se com o modelo que ele tinha em casa). Aos 30 anos, casado, com uma filha pequena e outra a caminho, sem emprego fixo (ora fazia bicos em agências publicitárias, ora fazia traduções), morando na casa dos pais e a ponto de ficar deprimido com a falta de perspectivas profissionais, surgiu o convite que mudaria sua vida.

Foi o editor Paulo Amorim, então diretor de redação da Zero Hora, quem percebeu que o rapaz poderia encontrar sua vocação definitiva, ou pelo menos um novo bico, agora no jornalismo e com salário no fim do mês. Fundado em 1964, o jornal gaúcho Zero Hora não tinha ainda o prestígio de concorrentes tradicionais como o Correio do Povo e a Folha da Tarde. Por isso, a expectativa com relação a novos colaboradores não era exatamente alta. Mesmo assim, LFV hesitou. Não sabia escrever, argumentava, ia ser um vexame para todo mundo. Amorim insistiu. Que tentasse, fizesse um teste. Se desse certo, ótimo. Se não, poderia voltar a fazer o que estava fazendo antes – ou seja, praticamente nada.

No início de 1967, Verissimo começou a trabalhar como copidesque, mas em poucas semanas já estava tocando todos os instrumentos na redação. Um dia escrevia o horóscopo, no outro poderia estar assinando, sob pseudônimo, artigos de opinião (“Certa vez dois dos meus pseudônimos polemizaram violentamente, pois tinham opiniões radicalmente opostas sobre determinado assunto.”). Foi editor das áreas de variedades, internacional e nacional. Também redigiu matérias para a seção Programinha, o guia de cultura e entretenimento. Em textos anônimos, o redator de poucas palavras e raros sorrisos se soltava. Não tinha o menor pudor em inventar lugares que não existiam, como um tal Centro de Tradições Gaúchas Ai Bota Aqui , e figuras fictícias da alta sociedade que ostentavam fortunas inexistentes na coluna social. A única função em que não se arriscou foi a de repórter – não por acaso, aquela em que é mais difícil passar mais do que um dia sem precisar falar com ninguém.

Quando o cronista Sérgio Jockymann, um dos mais lidos de Porto Alegre, trocou a Zero Hora por um veículo maior, o primeiro nome lembrado por Paulo Amorim para assumir a função foi o do coringa da casa, àquela altura já habituado a cobrir as férias dos colegas. O título da primeira coluna, Entrando em campo, publicada em 19 de abril de 1969, quando LFV tinha 32 anos, fazia referência à sua estreia no espaço nobre do jornal e também à expectativa para o Gre-Nal que se aproximava:

“Luis com ‘esse’ Fernando dos Verissimo de Portugal e Cruz Alta. Admirador do Internacional em geral e do Ivo Corrêa Pires¹ em particular, pró-Bráulio² no time, mas aberto ao diálogo. Credenciais, muito poucas. Sei que estou entrando em campo para substituir um astro mas vamos suar a camiseta, tentarei corresponder, futebol é assim mesmo e, no fim das contas, que diabo, são onze contra onze.” (Entrando em campo, 19 de abril de 1969)

Em 1970, Paulo Amorim perdeu o emprego, e Verissimo decidiu que deveria sair junto, em solidariedade. “O filho do Erico” era agora um jovem cronista em ascensão e já havia chamado a atenção de Breno Caldas, o todo-poderoso dono da Caldas Júnior, a empresa de comunicação mais importante do Rio Grande do Sul na época. A convite do empresário, Verissimo integrou-se à redação do tabloide Folha da Manhã, lançado no final de 1969 para concorrer diretamente com a Zero Hora. O novo colunista apresentou-se aos leitores com a crônica Credenciais:

“Como eu ia dizendo… Para quem chegou atrasado, um breve resumo da odisseia do cronista. As credenciais: branco, brasileiro, colorado. Sexo: sim. Estado civil: satisfatório. Sinais particulares: dois. Públicos: quatro. Convicções políticas: você deve estar brincando.” (Credenciais, 1970)

Driblar a censura e conviver com ameaças, mais ou menos veladas, faziam parte da rotina de todos os jornalistas do país naquela época, mas veículos menores (os chamados “alternativos”) tinham mais chances de ousar, em forma e conteúdo, e de escapar do radar dos censores. Inspirados na combinação de humor e política que garantiu o sucesso do carioca O Pasquim, lançado também em 1969, um grupo de amigos de Porto Alegre idealizou o jornal semanal Pato Macho. Sem redação fixa, as reuniões de planejamento ocorriam em lugares como a boate Encouraçado Butikin ou nas casas de LFV e do escritor Moacyr Scliar. Com circulação de abril a julho de 1971, as quinze edições do Pato Macho marcaram época na história da imprensa gaúcha.

Em 1975, quase um terço da redação da Folha da Manhã pediu demissão, inclusive o diretor Ruy Carlos Ostermann. Luis Fernando Verissimo, mais uma vez, deixou o emprego em solidariedade ao chefe – sendo recontratado logo em seguida pela Zero Hora. Com seus dois primeiros livros já publicados pela editora José Olympio e escrevendo duas crônicas por semana para o Jornal do Brasil, do Rio de Janeiro, Verissimo começava a se transformar num nome nacional.

Entre 1967 e 2021, ano em que parou de escrever, LFV publicou em dezenas de veículos do país, dos grandes aos minúsculos, e em alguns estrangeiros também. Nos intervalos, colaborou com programas de humor da Globo (como O Planeta dos homens e TV Pirata), escreveu relatos de viagem, contos e romances, desenhou, criou personagens (a Velhinha de Taubaté, o Analista de Bagé), vendeu mais de 5 milhões de livros, tocou sax, torceu pelo Inter.

Atravessou uma ditadura, dois impeachments e o fanatismo futebolístico gaúcho sem nunca esconder de que lado estava. Era lido por metalúrgicos, sociólogos (mesmo os contrariados) e até por gremistas. No tempo em que as unanimidades nacionais ainda eram possíveis, Luis Fernando Verissimo foi uma das maiores e mais duradouras.

Não importa o quanto os cães ainda insistam em ladrar, essa caravana já passou para a história.


¹ Famoso cronista esportivo da época.
² O meio-campista Bráulio Barbosa de Lima, conhecido como “garoto de ouro” e considerado um dos jogadores mais habilidosos do futebol gaúcho de todos os tempos.



Piauí Folha

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