Três esconderijos para Carla Zambelli

A Via Borghetto di Vara é um endereço de classe média alta com aspecto desolador. A pequena rua sem saída, localizada na Zona Oeste de Roma, a poucos quilômetros do Vaticano, abriga o apartamento onde Carla Zambelli viveu por cerca de um mês, entre o final de junho e o final de julho, quando foi encontrada pela polícia italiana. As torres residenciais exalam a solidão típica do subúrbio de qualquer cidade europeia. Tudo ali contrasta com a vibração pela qual a cidade é conhecida. Não há comércio, tampouco bares. Apenas um shopping center, ligado por uma passarela que cruza a Via Aurelia. Cada apartamento parece um universo isolado. “Nunca a vi por aqui”, contou um morador da torre onde a deputada foragida se escondia. “Ela foi presa? Então foi por isso que a polícia tocou o interfone ontem à noite.” 

A piauí reconstituiu os passos de Zambelli na Itália até sua prisão, na diminuta rua que fica a poucos minutos de carro do Vaticano, na estrada que leva ao Grande Raccordo Anulare, o anel viário que circunda Roma. No centro da história, está um segmento da comunidade brasileira que vive na capital italiana e é devota de Jair Bolsonaro. São poucos. Quando foram às ruas pela primeira vez em apoio ao ex-presidente — hoje investigado por tentativa de golpe — eram pouco menos de cem pessoas. Eles, no entanto, têm contatos, frequentam os salões que importam e cultivam relações com o empresariado local. Em sua maioria, são mulheres bem-sucedidas, empreendedoras, presença constante nas festas da comunidade brasileira em Roma.

O apartamento onde Zambelli foi presa tem 55 m2 e fica no sexto e último andar de um edifício normalmente alugado por períodos curtos. A proprietária do imóvel é Marcia Valéria Martins Moreira, 63 anos, natural do Rio de Janeiro, segundo registro da Agenzia delle Entrate (Receita Federal italiana). De acordo com o G1, ela está sendo investigada pela polícia italiana (que não confirma a informação). 

Moreira é uma empresária com atuação em diversos setores até janeiro passado. Sua última atividade foi como administradora do café Chicco d’Oro srl, conforme consta na Câmara de Comércio de Roma, com escritório em Via della Conciliazione, a rua que leva até San Pietro. A empresa foi encerrada em 13 de janeiro de 2025. Por quase catorze anos, ela geriu o estabelecimento dentro de uma das sedes do hospital pediátrico Bambino Gesù, em Palidoro, na costa noroeste da região metropolitana de Roma — uma das instituições de saúde mais importantes da Itália, pertencente ao Vaticano.

O sócio majoritário, com 99% das cotas, era — até a liquidação — um empresário romano, Stefano Rossetti, que administra outras nove empresas, muitas com vínculos diretos ou indiretos com a Santa Sé. É também proprietário único de um estacionamento vertical nas imediações da Praça de São Pedro, que recebe milhares de peregrinos diariamente.

Em suas redes sociais, seus posts sobre política mostram simpatia ao bolsonarismo, mas não sugerem engajamento fora das redes sociais (como manifestações). “Eleitor de Lula se desespera e pede a volta do Bolsonaro”, diz o título de um vídeo que mostra um rapaz reclamando dos preços em um supermercado.

Contatada por telefone pela piauí, Marcia Valéria Moreira afirmou não saber quem alugou o apartamento. “Tenho vários imóveis, todos sob responsabilidade de uma corretora. Ela cuida de tudo com meu advogado, que elabora os contratos”, explicou. Lembra apenas que o contrato foi assinado por um homem, brasileiro. Questionada se o homem é o coronel Aginaldo, marido de Carla Zambelli, que a acompanhou na fuga, ela não se mostrou tão alheia: “Sim, acho que era ele.”

Zambelli foi presa pela polícia italiana na terça-feira, em 29 de julho. Ela estava foragida desde o começo de junho, quando o ministro do STF Alexandre de Moraes determinou sua prisão preventiva. A deputada havia sido condenada, em maio, a dez anos de prisão e à perda do mandato por ter contratado um hacker para invadir e inserir documentos falsos no sistema do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Antes que Moraes expedisse o mandado de prisão, Zambelli viajou para a Argentina, depois de lá para os Estados Unidos e, por fim, se instalou na Itália, acompanhada do marido e munida de documentos que atestam sua cidadania italiana. Naquela mesma semana, ela foi incluída na lista de criminosos procurados da Interpol.

Assim que a deputada chegou à Itália, seu marido procurou uma corretora brasileira em busca de um apartamento disponível. Ela respondeu que, na época do Jubileu (período religioso repleto de eventos em Roma), os imóveis eram escassos e caros.

Quem se somou aos esforços foi a influenciadora digital Laiza Castro, brasileira que vive na capital italiana e integra o grupo “Patriotas em Roma”. Em vídeo publicado no Instagram dias atrás, Castro lançou uma campanha de arrecadação para as “famílias patriotas”, em referência aos presos pelo ataque a Brasília em 8 de janeiro de 2023. Próxima a Zambelli, ela pediu ajuda para encontrar uma casa que pudesse servir de refúgio. Segundo uma fonte ouvida pela piauí, foi ela quem recebeu Zambelli no Aeroporto Internacional de Roma, no dia 5 de junho.

A piauí ligou e mandou mensagem para Laiza, mas não obteve resposta.

Zambelli mudou-se para o apartamento da Via Borghetto di Vara no final de junho. A data coincide com os primeiros vídeos publicados no novo perfil do Instagram da deputada, criado após a fuga. A janela ao fundo no vídeo de 10 de julho mostra a arquitetura do apartamento na zona da Via Aurelia. 

Antes, a deputada se estabeleceu em Cecchina, no município de Albano Laziale, ao Sul de Roma. Na cidade vive uma mulher cearense de sobrenome Oliveira, que é apontada por brasileiros como prima do marido de Zambelli. A piauí tentou contato com a brasileira, mas ela não atendeu. 

A rota da fuga de Zambelli na Itália, portanto, tinha três etapas: Cecchina, o apartamento de Marcia Moreira em Roma e a próxima parada: uma residência em Siena, que não chegou a ocupar. Ela, porém, visitou a cidade na Toscana, dias antes de ser presa, já com planos de se estabelecer ali. “Ela foi para Siena e depois voltou a Roma para pegar as malas antes de deixar a cidade”, disse uma fonte. O contrato de aluguel do apartamento da Via Borghetto di Vara, alugado pela brasileira Marcia Moreira, expirava em 31 de julho. 

Na Itália, Zambelli é representada por Pieremilio Sammarco, figura conhecida em Roma. O irmão de Pieremilio, Alessandro Sammarco, já foi advogado de Cesare Previti, ex-ministro da Defesa do primeiro governo Berlusconi (1994–1995), condenado por corrupção em 2006. Sammarco também representa Marcia Moreira, dona do apartamento. Ele limitou-se a dizer que as questões serão tratadas na Justiça e que não vai adiantar nada à imprensa.



Piauí Folha

Talvez te interessem:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


© Copyright Meu Portal de Notícias 2022. Todos os direitos reservados.