O teorema da masculinidade como aversão ao feminino

A policial militar Juliana Lemes nasceu há 40 anos em Itambacuri, uma pequena cidade em Minas Gerais. Além de doutora em serviço social, ela é presidente do conselho do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, uma das mais importantes organizações de pesquisa e intervenção no debate público na área de segurança, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Essas conquistas, e o fato de ser mulher numa carreira dominada por homens, muitas vezes geram estranhamento entre seus colegas de farda. “Já ouvi várias vezes que ‘mulher não deveria estar na polícia’, que ‘esse não é lugar para mulher’. A gente tem que ser excelente para conseguir um mínimo de reconhecimento. Enquanto isso, um homem pode errar, pode ser mediano, e ninguém questiona”, ela diz ao escritor e sociólogo José Henrique Bortoluci na edição deste mês da piauí.

Há anos, Lemes se dedica ao tema da violência contra a mulher, tanto em sua pesquisa como em sua atuação na polícia. O doutorado dela foi sobre esse tema, com foco no papel da segurança pública e da Justiça na região do Vale do Mucuri. “Eu queria entender o que tinha sido feito ou o que tinha sido ignorado enquanto esses crimes aconteciam.”

O estudo da policial mostrou que violência contra a mulher e feminicídio andam juntos, e que o Estado falha muito na prevenção. Em 2016, ela entrou na Patrulha de Prevenção à Violência Doméstica. “Logo vi que, apesar da Lei Maria da Penha, a rede de acolhimento era um caos. Ninguém sabia direito para onde mandar as vítimas”, diz. Ela começou a treinar agentes e orientar mulheres. “No interior, as políticas públicas mudam a cada eleição, e a violência no campo era invisível.”

Lemes é a pessoa em destaque no quarto texto do dossiê “Geração Democracia”, da piauí, em que Bortoluci discute sobre o poder masculino e a rejeição à mulher. “A capacidade de exercer a força e de acumular riqueza e poder são duas das peças-chave do enigma que é ser homem. É pelo exercício da violência que, ao menos numa situação limite, o teorema da masculinidade como aversão ao femini­no se resolve”, ele escreve. “Essa masculinidade dos punhos e das armas, da repressão dos senti­mentos, da força como sinal de dignidade, tudo isso é ingrediente fundamental de uma cultura da violência que é uma das maiores heranças recebidas por nossa ge­ração: herança da ditadura militar com suas formas institucionalizadas de violência policial e os esquadrões da morte, herança de uma lógica racista que identifica corpos negros como a fonte de todo o mal e de toda a corrupção, herança da ances­tral fobia às mulheres que tem no feminicídio sua realização mais trágica.”

Bortoluci é autor de O que é meu, livro traduzido para mais de dez idiomas. No dossiê “Geração Democracia”, ele reflete sobre a experiência política de sua geração, que cresceu no período da redemocratização do Brasil.

 Assinantes da revista podem ler a íntegra do texto neste link.



Piauí Folha

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