A escolha dos Estados Unidos para abrigar a primeira edição da Copa do Mundo dos Clubes foi um tanto ousada por parte da Fifa. A decisão poderia ter sido catastrófica, inclusive por causa da tumultuada situação política nos Estados Unidos, com a perseguição aos imigrantes, sobretudo latino-americanos, grandes fãs de futebol, escreve Rodrigo Barneschi na edição deste mês da piauí.
Ao fim de 63 jogos, entretanto, e ponderados erros e acertos, a sensação é de que a Fifa conseguiu emplacar a sua nova Copa, que teve média de 39 557 torcedores por partida. Não é pouco, mas é bem menos do que o recorde das Copas do Mundo de seleções, que foi a de 1994 (também realizada nos Estados Unidos) e teve uma média de 68 991 pessoas por jogo.
Para essa diferença, pesou a maior capacidade dos estádios de três décadas atrás e também a pouca lotação dos jogos menos concorridos na Copa do Mundo dos Clubes – como a partida do time sul-africano Mamelodi Sundowns com o sul-coreano Ulsan HD, com apenas 3 412 testemunhas – um número impensável para uma competição global. O poderoso Real Madrid liderou o ranking geral de público, mas isso se deu menos pela presença massiva de espanhóis e mais por seu status de marca global.
Em razão disso, a Fifa teve de revisar a política de preços dos ingressos com a competição em andamento. Chegou até a reduzir o valor de determinados setores em alguns estádios e devolver dinheiro para quem fizera compra antecipada. Nas primeiras rodadas, a fim de evitar clarões na arquibancada em jogos menos disputados, distribuiu ingressos gratuitos para aumentar a taxa de ocupação e, nas arenas maiores, fechou setores superiores ou aqueles que não eram exibidos pelas câmeras de tevê, adensando o público em espaços mais visíveis na transmissão. Temendo ter a arquibancada vazia logo em um dos últimos jogos do torneio, a Fifa fez despencar o preço dos ingressos para a semifinal entre Fluminense e Chelsea: de 474 dólares (cerca de 2,6 mil reais) para apenas 13 dólares (em torno de 72 reais) – menos do que o cobrado por um copo de cerveja dentro do estádio, na faixa dos 16 dólares (88 reais).
O bom desempenho dos brasileiros nas fases iniciais pode ser lido de diversas formas, e uma delas referenda uma crítica dos clubes mais ricos: o calendário. Antes dessa nova Copa, os duelos intercontinentais eram programados para dezembro, com europeus no meio da temporada e sul-americanos exaustos depois de uma temporada inteira. No evento, o cenário se inverteu: brasileiros (e argentinos) chegaram aos Estados Unidos em plena forma, e enfrentaram times enfastiados pela temporada que acabara de se encerrar. Somem-se a isso o agendamento de partidas para as 12 horas, as temperaturas superiores a 30ºC, o estapafúrdio protocolo de paralisar as partidas diante de ameaças de tempestade que quase nunca vieram, e interromperam jogos por até duas horas – e está pronta a receita para a contestação.
A Copa do Mundo dos Clubes comprovou que a Fifa e toda sorte de engravatados já escolheram um lado: os dispersos consumidores que vestem a camisa de um time europeu como se fosse uma grife. O paradoxo é que o produto que eles vendem depende da paixão genuína de quem se dispõe a desembolsar uma pequena fortuna pessoal para seguir até outro país e apoiar seu time.
Com os fãs europeus ausentes ou demonstrando apatia nos Estados Unidos, foram as torcidas da América do Sul, da África e mesmo da Ásia que, com sua presença numerosa e espontaneidade, fizeram um espetáculo memorável na arquibancada e nas ruas.
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