Pode parecer estranho para quem não convive com eles, mas é um traço frequente: músicos não ouvem música. Quer dizer, não escutam nada no tempo livre. Nem deveria causar surpresa. Quem passa horas por dia praticando um instrumento, memorizando melodias e letras, esmerilhando detalhes de uma partitura, depois não vai querer sentar para ouvir música. “Odeio música!”, costuma dizer Tom Zé, encenando a comédia essencial, quando lhe perguntam o que escuta em casa.
Claro que há exceções a essa regra. Muitas vezes é preciso ouvir alguma peça, por motivo profissional. Outras tantas, vai-se a um concerto ou a um show, seja pelo interesse em escutar ao vivo algum artista, seja por amizade. Aqui e ali, também, se ouve um disco por prazer – o que é mais raro.
Quem hoje faz da música profissão, na certa ouviu música compulsivamente na juventude. É um período fundamental de formação de repertório, cria um lastro que ancora tudo mais tarde, embora vá se transformando muito com a experiência. E a prática profissional também exige muitas horas de escuta, não só de si mesmo. Mas aqui estamos falando da escuta livre, na maturidade, sem obrigação.
Obrigação – melhor dizendo, imposição – é o que não falta, por outro lado (e por todos os lados, mesmo), com a música que preenche cada centímetro de espaço público. Para os músicos, um inferno cotidiano, amargado com variáveis margens de tolerância. Não há loja, café, restaurante, ou táxi que não obrigue os frequentadores a escutar alguma coisa, sempre ao gosto do negócio, em volume que vai do moderado ao ofensivo. Pedidos para desligar serão atendidos, numa minoria de casos, com resignada educação; no mais das vezes, ignorados. Pessoalmente, não foram poucas as ocasiões em que entrei numa loja e saí em menos de um minuto, por incompatibilidade acústica, sem falar na espiritual.
Não se trata só de excesso de música, para quem trabalha com isso. É o sentido do que se escuta, mesmo. Para um músico, antes de tudo, a música tem sua lógica interna, como uma língua falada. Pode ter maior ou menor valor, mas será sempre decodificada intuitiva e/ou intelectualmente. Atrai a atenção; e isso atrapalha o que mais se quer fazer.
Desde Platão se diz que a música afeta os humores. Quem não sofre a distorção profissional dos especialistas, decerto usa muito a música com este fim. Mas, convenhamos, não se trata de escutar. Bem mais de ambientação sonora, carregada que seja de associações.
Conversar ouvindo música? Não dá. São duas conversas ao mesmo tempo. Ler? Muito pior. Tem gente que escreve ou estuda “ouvindo música”. A expressão vai entre aspas, porque isso, para nós músicos, simplesmente não é possível. Ainda bem que existe um vídeo de Chico Buarque, circulando nas redes, dizendo a mesma coisa. Me livrou de anos e anos de abuso familiar.
E fazer exercício? E academia? E o pilates, como fica?
Agora chegamos à razão de ser deste texto. O pano de fundo são as aulas de pilates que minha mulher, Claudia, e eu fazemos há anos, com entusiasmada disciplina. Desde o início, atendendo a nosso pedido, as aulas não tinham música, exceto a que vem do andar de baixo, no funcional – pancadão ou pancadinha, que me empenho em bloquear do cérebro, como se fosse só poluição.
O método inventado por Joseph Pilates exige concentração e ritmo, além de força e equilíbrio. Tem muito a ver com a respiração, que também define um pulso. Melhor do que o silêncio, neste caso, nem João. Mas claro que alguém ia acabar reclamando da falta de música. E reclamou mesmo, como nos informou, levemente constrangida, nossa querida professora.
Preocupado com a consequência disso, temendo o pior, decidi preparar, eu mesmo, uma playlist. Já que tem de ter música, será que não dá para fugir do registro típico de academia? Ginástica vegetariana com música ultraprocessada? Sem pensar muito, só por livre associação, em meia hora reuni algumas dezenas de faixas. Quando conferi a duração total e vi que estava dando exatamente 10h0m, considerei o número um sinal do destino e dei por encerrada a lista. Logo mandei o link do tocador para a professora. Que encaminhou para a gerência.
Na playlist, entrou um pouco de tudo. Música brasileira (o que mais tem), mas também música clássica (por que não?), um pouco de jazz e um mínimo de canção latino-americana e francesa. Correndo por fora, outras escolhas, como Bob Dylan (antigo e recente), o Danish String Quartet (folclore escandinavo), ou Ivan Vilela (viola caipira). Nenhum purismo: desprezei a necessidade de incluir todos os movimentos de alguma composição, por exemplo. Também não houve qualquer esforço de construir uma mini-enciclopédia musical.
Cada faixa deve ser relativamente curta. Deixei de lado andamentos muito rápidos ou muito lentos, que atrapalhariam os exercícios. Fiz questão de incluir algumas coisas muito conhecidas – de Águas de março (com Elis e Tom) ao Prelúdio nº 1 de O cravo bem temperado, de Bach (tocado por András Schiff) –, mas também quis oferecer novidades. Não é minha lista de favoritos, embora todas as escolhas sejam fruto da memória espontânea, quer dizer, do afeto. Ficou de fora uma infinidade de autores e intérpretes; mas, em retrospecto, o que entrou define um gosto, que tem muito de pessoal, mas não é só meu.
Playlist entregue, comecei, eu mesmo, a escutar o que tinha feito. Aos poucos, em doses homeopáticas, usando ordem randômica (mas não “randômica inteligente”, que acrescenta coisas por conta própria). E foi aí que o mundo parou, o céu se iluminou e os mares se abriram para a fuga do exílio. Depois de tantos anos de relativa seca, foi chuva no sertão. Cada peça, cada canção, cada pedaço de obra aguçava emoções e inteligência, com sua força natural multiplicada pelo peso da memória. Como é possível se lembrar, imediatamente, no espaço de um ou dois segundos, de algo que não se escuta há dez ou vinte anos? Lembrança musical completa, compasso a compasso. Não só isso. Como é possível se ver transportado, do modo mais direto, para circunstâncias de vida que, às vezes, remontam à infância e à adolescência?
Mal começa o primeiro movimento da Sonatina para piano de Ravel, tocada por Martha Argerich, e me vejo no quarto da casa onde cresci, com a memória mais vívida da sensação de escutar aquele disco, mas também, agora, me vendo de longe, com a benevolência que a idade nos dá. João Gilberto, Elis, Caymmi, Gal Costa: cada um começa a cantar e outros tantos momentos, de pretéritos mais ou menos distantes, outras tantas histórias se desfazem e refazem numa espécie de presente absoluto. Cada música, para mim agora, uma verdadeira madeleine. E o link da lista, um “aleph”, para usar a figura de um conto de Jorge Luis Borges: “Um lugar onde estão, sem se confundir, todos os lugares da terra, vistos de todos os ângulos.”
Não é menos que isso que tenho experimentado, a cada nova dose. A sequência acidental de faixas também tem seu efeito. Justamente aquilo que eu jamais faria, em outro contexto – escutar uma música, ou até só um pedaço de uma música, e logo outra que, aparentemente, não tem nada a ver com a anterior –, provoca iluminações. Como se a lista fosse a memória total e cada ponto uma entrada de acesso. Cada canção, cada movimento, cada solo mais uma peça do grande quebra-cabeça, que se faz adivinhar.
A vizinhança entre as músicas também acaba ensinando incidências e coincidências de sentido. Quem diria que o primeiro movimento do Inverno de As quatro estações, de Vivaldi (tocado por La Serenissima), seria uma boa e irônica introdução para o “Não se afobe, não/Que nada é pra já”, de Futuros amantes, de Chico Buarque? Ou que Vuelvo al Sur (Piazzola/Solanas), cantada por Renato Braz, com o Quarteto Maogani de violões, ficaria bem depois de José Miguel Wisnik e Caetano Veloso cantando Assum branco e seguida pela Allemande da Suíte francesa nº 3 de Bach, tocada por Maria João Pires? Ou que Autonomia (Cartola), interpretada por Celsim e João Camarero, seria bom prelúdio para a Valsa da dor, de Villa-Lobos, interpretada por Nelson Freire? O algoritmo terá suas razões, que a própria razão desconhece.
De qualquer modo, do ponto de vista pessoal, a essa altura a conta é outra. Passado, presente e futuro se cruzam, nesses núcleos que são música e histórias da música, também: amores, amizades, lembranças, fantasias, realidades.
“Não é estranho que tripas de carneiro possam extrair as almas para fora de nossos corpos?” A pergunta de um personagem de Shakespeare (ato II, cena 3 de Muito barulho por nada) resume o mistério elementar. Cordas, madeiras, metais, tubos, teclas, pregas vocais. E ar. É disso que se parte. Quem diria que o resultado pudesse explicar a vida. Encare quem puder.
Descobrir assim, agora, mais uma vez, a música: quem diria? E tudo isso numa simples playlist, ao alcance de um toque.
Até agora, sem retorno. Baixou o volume, já é alguma coisa. Como disse Vinicius de Moraes (numa cena do documentário Vinicius, dirigido por Miguel Faria Jr.), embriagado, às quatro da madrugada, perguntado se queria um prato de espaguete: “Encararemos.”
Aos interessados, a playlist pode ser acessada aqui.