Passageira relata ter ficado mais de 2 horas aguardando cadeira de rodas em voo da Latam
A consultora de diversidade Luciana Trindade de Macedo, de 46 anos, é cadeirante e relatou ter passado por constrangimento e desrespeito por parte da tripulação da Latam, na última quarta-feira (27), durante o voo LA 3528, que saiu de Brasília com destino a Guarulhos, na Grande São Paulo.
Ela e seu companheiro, André Ancelmo Araújo, de 40 anos, foram impedidos de desembarcar depois que o avião chegou ao Aeroporto Internacional de São Paulo, às 16h38. Segundo eles, a cadeira de rodas não chegava e foram ignorados pela tripulação, que não informou o que estava acontecendo.
A Latam nega e afirma que os dois foram informados sobre o acionamento da Polícia Federal e de que o desembarque ocorreria após a chegada das autoridades (leia a nota na íntegra mais abaixo).
De acordo com o casal, o problema teria começado quando a Latam pediu que eles trocassem de lugar “para segurança de outros passageiros”. Isso porque Luciana, que faz uso de um aparelho respiratório, estava sentada na poltrona do meio e deveria se mudar para a da janela por conta do protocolo de segurança.
O aparelho usado por ela é habilitado pela Anac, e a Latam também permite o uso durante o voo, desde que sejam respeitadas algumas condições, como ter bateria suficiente para operar de forma autônoma.
De acordo com Luciana, eles optaram pelo voo da Latam justamente por conta desses requisitos e nunca tiveram problemas com o equipamento. Disseram também ter questionado o pedido da comissária, mas aceitaram trocar de lugar.
“A gente não tem problema de mudar de poltrona, de fazer esses ajustes, mas eles precisam também garantir a nossa segurança e as dos demais passageiros”, relatou André, destacando que a aeronave estava em movimento no momento do pedido.
Segundo Luciana, a comissária a abordou dizendo que ela seria “um empecilho e uma insegurança para os passageiros que estavam ao lado”.
Quando a aeronave pousou em Guarulhos, todos os passageiros desceram do avião, e André se levantou para ir ao banheiro. Ele conta que foi quando um dos comissários começou a conversar com ele sobre o episódio da mudança de lugar.
“Ele falou para mim: ‘Olha, o senhor tinha que me agradecer pelo que eu tentei fazer inicialmente no voo para garantir a sua segurança. Porque se acontece um acidente com a aeronave, e ela, a passageira, está no meio, o senhor não conseguiria se salvar. Então, a melhor opção é colocá-la na janela'”, relatou.
“Como se a vida da Luciana não significasse alguma coisa ou se a vida da Luciana valesse menos do que a minha”, disse André.
Eles discutiram, e André tentou entrar na cabine para falar com o comandante do voo. O comissário conversou com o comandante, que não quis sair para dar explicações, ao que André teria, então, voltado para seu lugar para aguardar a cadeira de rodas de Luciana e o desembarque.
Mas isso demorou mais do que o esperado: eles ficaram mais de duas horas dentro da aeronave.
“Ficamos sem entender de fato o que estava acontecendo, porque geralmente a cadeira demora realmente para entregarem, mas já estava com um tempo muito grande”, conta André.
Depois de mais dez minutos pedindo ajuda, uma comissária trouxe água, e Luciana pôde tomar seus medicamentos. Ao questionar sobre a demora e pedir informações, a passageira diz que ela pediu desculpas, mas disse que não podia falar nada e retornou para o seu lugar.
O casal conta que acionou a Anac, a Polícia Federal e a própria Latam enquanto permaneciam na aeronave, mas não tiveram resposta.
Por volta das 19h, chegaram agentes da Polícia Federal. André perguntou se eles estavam lá por conta do pedido que ele fez de ajuda, mas o agente negou e contou terem sido acionados pela companhia aérea.
André contou o que passaram, e o agente da PF perguntou para os funcionários onde estaria a cadeira de rodas. A resposta, segundo Luciana, foi que tinha sido uma orientação da supervisão da Latam não entregar a cadeira e mantê-los dentro da aeronave até que os policiais chegassem.
André e Luciana foram, então, levados para prestar depoimento na delegacia da PF do aeroporto e disseram que, de acordo com o agente, não ficou configurado que eles tenham cometido algum delito.
“Eu ainda estou muito sentida com tudo isso, porque eu não consigo ver sentido em chamar a polícia, em querer me colocar como criminosa de uma coisa por ser quem eu sou. Eu nunca imaginei passar por tanto sofrimento, assim, frio, sede, vontade de ir ao banheiro e sem ter condição nenhuma e nenhum suporte. Eu estava muito vulnerável e sem saber para quem pedir ajuda”, conta Luciana.
Tripulante da Latam ignora apelo de casal que relata ter ficado esperando cadeira de rodas por duas horas em voo
Arquivo pessoal
“A gente não sabia o que estava acontecendo, nem a operação em solo, supervisão, o piloto, ninguém veio dizer: ‘Olha, vocês estão aqui retidos porque nós chamamos a Polícia Federal'”, destaca André.
Procurada, a PF informou em nota ter sido acionada para “desembarque compulsório por conduta inadequada”, que as partes foram ouvidas, o registro feito, e o casal, liberado.
O que disse a Latam
“A LATAM Airlines Brasil informa que precisou solicitar apoio da Polícia Federal no voo LA3528 (Brasília-São Paulo/Guarulhos), realizado na quarta-feira (27/08), em função do comportamento indisciplinado do acompanhante da passageira. Nesse sentido, ambos foram informados sobre o acionamento da autoridade e de que o desembarque ocorreria após a chegada das autoridades – razão exclusiva do tempo de espera a bordo.
A companhia esclarece ainda que os passageiros aguardaram a chegada da autoridade policial junto da tripulação do voo – que também permaneceu a bordo – e que em nenhum momento houve falta de fornecimento de água aos passageiros ou extravio/retenção da cadeira de rodas.
A LATAM reforça que cumpre rigorosamente os padrões de segurança e os regulamentos das autoridades nacionais e internacionais, mantendo o compromisso de garantir uma viagem segura para todos.”
O que disse a PF
“Após o pouso de um voo doméstico, policiais federais foram acionados pelo comandante da aeronave para intervir em um caso de mau comportamento a bordo. Um passageiro, que acompanhava uma pessoa com necessidades especiais em uso de aparelho para respiração, dirigiu-se de forma agressiva a um integrante da tripulação, proferindo palavras de baixo calão e ameaças. O fato ocorreu após a comissária de bordo solicitar, por questões de segurança, a mudança de poltrona da passageira acompanhada. O homem foi submetido a desembarque compulsório e todos os envolvidos foram ouvidos na delegacia da PF para os devidos registros.”
Luciana Trindade de Macedo, que relatou ter ficado duas horas em voo, aguardando cadeira de rodas
Arquivo pessoal
Piauí Folha

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