Anarquia em 4 trilhões de pixels

Uma esquadra com centenas de caravelas se aproxima da costa portuguesa exibindo, nos mastros, bandeiras do Brasil e de outras ex-colônias lusas – canhões a postos. O mesmo acontece no litoral da Espanha, tomado por um sem número de embarcações mexicanas. Sobre Sevilha, uma faixa quilométrica diz “Nueva Tenochtitlan”, deixando claro que aquele pedaço tem um novo dono. Em Gaza, o céu coberto por uma nuvem vermelha faz pensar em mísseis ou sangue, mas trata-se, na verdade, de milhares de corações flutuando em apoio aos palestinos. Entre os 150 km que separam Cuba e a Flórida, uma ponte enfim foi construída, pondo fim ao embargo econômico que remonta a 1962. Na Escócia, a casa de J.K. Rowling, a autora da saga de Harry Potter conhecida por declarações transfóbicas, bandeiras e mensagens de apoio aos direitos transsexuais estão por toda parte. Em Brasília, vê-se Jair Bolsonaro atrás das grades, com um aviso: “A qualquer momento…”

No instante em que escrevo estas linhas, é assim que está configurado o planeta Terra no Wplace, jogo online criado por brasileiros que tem feito um sucesso estrondoso desde julho, quando foi aberto ao público. No momento em que este texto chegar às mãos do editor, na piauí, provavelmente o planeta estará com outra cara. E talvez nem um resquício do que descrevi no parágrafo acima tenha sobrevivido quando ele for publicado no site da revista. Talvez os mexicanos tenham sido expulsos da costa espanhola, e a ponte, dinamitada.

Assim funciona o Wplace, onde qualquer pessoa, a qualquer hora, por navegador ou aplicativo, pode colorir pixels sobre o mapa-múndi, deixando sua marca – e provavelmente destruindo a de outros ao fazê-lo. O mapa é um só para todos, e por isso está em constante mutação. Há 4 trilhões de quadradinhos disponíveis, e cada usuário, ao se inscrever, tem direito a pintar 62 deles. Cada pixel pintado gasta uma unidade de tinta que é renovada a cada trinta segundos, impondo, portanto, uma espera de 31 minutos para que a recarga seja completa. Conforme desenham, os usuários vão subindo de nível e ganham uma carga maior de pixels para pintar de uma só vez. De todo modo, para fugir da espera, muitos deles se juntam, somando seus pixels para fazer desenhos complexos de personagens da ficção, enfeitar suas cidades de origem, homenagear parentes falecidos, deixar mensagens políticas, “invadir” territórios distantes ou apenas rabiscar a esmo, sem objetivo aparente.

“Nem nos sonhos esperávamos essa repercussão, e era impossível estar preparado”, diz Enzo Watanabe, de 26 anos, que criou o Wplace com dois amigos de longa data, Lucas Teruo (26) e Murilo Matsubara (27). Os três paulistas se espelharam no Reddit, rede social que em 2017 disponibilizou um quadro de 1000×1000 pixels em branco, com 1 milhão de quadradinhos para seus usuários pintarem numa tela compartilhada por todos. O chamado r/place tinha duração de apenas 72 horas e limitava o número de pixels pintados por cada usuário num determinado período de tempo, o que também incentivava a colaboração entre participantes. O experimento teve outras duas edições e repercutiu bastante, fomentando análises e críticas, mas nunca voltou em formato definitivo. Com o advento do OpenStreetMap, um mapa-múndi de dados abertos em que usuários podem inserir informações úteis (como a localização de hospitais, ciclofaixas, bancas de jornal, pontos de táxi), os três amigos tiveram a ideia de mesclar os dois universos, arte e cartografia. Mas estabeleceram que, diferentemente do r/place, a pintura não teria data para acabar.

Segundo Watanabe, o trio achou que o novo site não ia extrapolar seu círculo de conhecidos. Em 1º de agosto, porém, onze dias após o lançamento, já havia mais de 100 mil usuários. Dali uma semana, o site alcançou o primeiro milhão. Hoje, passou dos dez.

Não foram só os amigos a serem pegos de surpresa, mas também seus servidores, que saem do ar com frequência devido ao grande número de acessos. Formado em administração, Watanabe largou o trabalho na marcenaria da família e passou a se dedicar integralmente ao Wplace. Matsubara, engenheiro de formação, programou todo o site e continua adicionando novas ferramentas para aprimorá-lo. Teruo cuida das operações e finanças, já que o projeto, ao contrário do r/place, tem uma inegável faceta de negócio: o usuário que quiser pintar mais pixels pode comprar recargas, que custam entre 20 e 400 reais. Pode também comprar bandeiras prontas, poupando-se do esforço de desenhá-las. Cerca de 30% dos usuários já investiram alguma quantia no jogo, segundo Watanabe. Ele diz que a maioria do dinheiro vem de fora do Brasil e nega que ele ou os amigos estejam milionários. Garante que toda a receita foi reinvestida na contratação de servidores mais potentes e em outras melhorias estruturais para garantir a longevidade do projeto.

A maioria dos desenhos no Wplace é obra de alguma fanbase, especialmente as ligadas à cultura pop. São artes que reproduzem elementos de desenhos animados, séries de tevê, games, bandas, times de futebol. Manifestações políticas também têm lugar, sobretudo em regiões do mapa onde há instabilidade geopolítica (Gaza, Kiev, Moscou, Washington, entre outras). É comum que cultura pop e política convivam lado a lado, ou misturadas, com personagens de anime agitando a bandeira ucraniana, por exemplo. Seja qual for o objeto desenhado, os usuários costumam precisar da ajuda de outros para terminá-lo. Por isso há muitas obras com contornos definidos, mas vazias por dentro, aguardando pessoas bem intencionadas que queiram preenchê-las. Ou, o que é mais provável, desfigurá-las.

Como qualquer canto da web que permite a livre manifestação de centenas de milhares de pessoas, o Wplace tem na democracia um trunfo e um problema. Suas regras proíbem discurso de ódio, nudez, apologia ao crime e ao suicídio, mas isso não impede que o visitante se depare de vez em quando com desenhos dessa natureza. Assim como há milhares de usuários que se unem para montar projetos inofensivos, como um retrato da poetisa Safo na ilha grega de Lesbos, outros se juntam para simplesmente delinquir.

O primeiro grupo visivelmente é maior que o segundo, e assim costuma ser em todas as plataformas, mas a facilidade é grande: bastam pouco mais de dez pixels para fazer uma suástica. Os administradores vêm tentando criar mecanismos para lidar com isso o mais rápido possível e impedir que o site se torne tóxico o suficiente para sofrer uma debandada. Contam com uma equipe de vinte moderadores contratados e dez voluntários, responsáveis por checar as denúncias apontadas pela comunidade e apagar os conteúdos impróprios.

É o preço que a anarquia cobra. Esse modo de funcionamento caótico e amador tem seus problemas, mas é sem dúvidas uma resposta a um universo altamente monopolizado pelas big techs. Resgata, ao menos em parte, o sonho inicial da world wide web e daqueles que um dia imaginaram utopias numa rede rizomática, sem centros. Na ausência de algoritmos e plataformas que concentram informações úteis, a navegação não era um mar de rosas naquela época. Ainda não havia leis contra crimes digitais, nem métodos bem estabelecidos de proteção online. Exigia-se maior esforço do usuário para encontrar conteúdos que o satisfizessem, além de uma certa dose de privilégio, dado o alcance restrito da conexão e seus custos. Mas a contrapartida era a descentralização e uma maior pluralidade de ambientes digitais visitados, projetos independentes, fóruns abertos e trabalhos coletivos em sites sem nenhuma monetização, a maioria construída de forma amadora. Poucos temiam que seus dados fossem vazados para megacorporações. A web era percebida justamente como um refúgio do mundo hierarquizado, controlado e excludente. Um lugar onde não havia a necessidade de mediadores.

A exaustão provocada pelos monopólios atuais, com seus algoritmos viciantes, tem feito pipocar, aqui e ali, iniciativas que se propõem a romper com esse padrão. É o caso do Mastodon, uma rede social sem algoritmos, e o itch.io, uma plataforma onde se pode criar e distribuir jogos gratuitamente. O Wplace parece imbuído desse mesmo espírito. No site, os autores dos desenhos são anônimos e não há opção de bate-papo interno, de modo que os usuários só interagem via pixels. E, o que é mais importante, a plataforma não combate – pelo contrário, estimula – o caos criativo, tão veloz quanto inclemente.

No município mineiro de Itabira, não demorou para que um desenho de seu cidadão mais ilustre, o poeta Carlos Drummond de Andrade, fosse rabiscado sem dó. A maior parte das reclamações recebidas pelo Wplace são justamente contra pichadores que, como adolescentes em idade escolar, parecem querer apenas semear o tumulto (em vez de desenhar órgãos genitais na lousa da sala de aula, o fazem pixel a pixel no mapa online). Artes que demoraram dias para serem feitas e mobilizaram dezenas de usuários tornam-se irreconhecíveis em questão de horas. Os desenhos às vezes são vandalizados, e às vezes são simplesmente cobertos por outros desenhos. Onde havia um Naruto Uzumaki, passa a haver um Homer Simpson, que dali a pouco será ofuscado pelo escudo da Cabofriense.

Por mais que o jogo não tenha data limite para acabar – e também por isso –, toda arte feita em seus trilhões de pixels está fadada a ser destruída, seja por pichadores ou por desenhistas, bem ou mal-intencionados. Watanabe não descarta que, no futuro, o mapa seja resetado, apagando os desenhos da face da Terra. Mas antes disso, ele garante, o conteúdo seria salvo para visualização, como uma última fotografia antes do apocalipse.

Passear pelo Wplace é observar um oceano de pequenas combinações se atualizando a cada poucos minutos. Grupos se formam e se desfazem, obras começam e são abandonadas, frases em apoio a uma determinada causa ganham letras adicionais que alteram completamente o seu sentido. A ideia de “proteger” os pixels já pintados, impedindo sua depredação, chegou a ser aventada durante o desenvolvimento do site, mas, segundo Watanabe, logo foi deixada de lado. Seria matar a graça e impedir a construção de saídas criativas. “As pessoas têm que inventar um jeito de conviver nesse ambiente caótico.”

Em Porto Alegre, a convivência foi acordada à la Berlim na Guerra Fria, com uma faixa que divide a cidade ao meio. O que ela separa não são capitalistas e socialistas, mas torcedores do Grêmio e do Internacional. A parte de cima da cidade é toda azul, preta e branca; a debaixo é vermelha e branca. Para preservar desenhos anteriores a essa divisão, pokémons e outros personagens ganharam camisetas nas cores dos times em cujo território permaneceram. O acordo não foi intermediado pela plataforma, garante Watanabe. Foi fruto de uma negociação espontânea dos próprios usuários – o que não impede a ocasional aparição de pixels vermelhos acima da divisória. A regra, porém, costuma ser respeitada.

Tão rápido quanto surgiram, os 10 milhões de usuários podem largar o Wplace à procura de outra novidade. Nós fóruns online em que se discute o jogo, é comum ver pessoas desabafando sobre a frustração de terem seus desenhos apagados. Para alguns, isso é motivo suficiente para abandonar o site. Outros, pelo contrário, ficam vidrados na dinâmica instável e sentem-se estimulados a prosseguir no esforço vão de desenhar.

Para garantir que o site seja um sucesso duradouro, o trio de desenvolvedores tem como foco, hoje, a remoção de conteúdo impróprio e a realização de pequenos “eventos” dentro do jogo – recentemente, dedicaram uma área temporária da Antártida a desenhos de filmes de terror, apenas. Pretendem, num breve futuro, ter ajuda de um software que reconheça padrões comuns a desenhos proibidos e os remova automáticamente, liberando os moderadores para atuar somente em casos complexos, que exijam uma dose de interpretação e bom senso. Controlar uma multidão online é tarefa ingrata, e os rapazes já se habituaram a reclamações de gente que não viu motivo para ser banida, que não queria que seu desenho fosse apagado, ou que não foi atendida ao fazer uma denúncia. Queixas que, provavelmente, existirão enquanto existir o site. Watanabe diz que, além de investir nessas melhorias, ele e os amigos planejam lançar novidades periódicas, numa tentativa de manter aceso o engajamento dos milhões de desenhistas.

A meta é manter por pelo menos um ano o nível de interesse que existe hoje na plataforma. Espaço para desenhar ainda há de sobra, já que a maior parte dos trilhões de pixels disponíveis permanece virgem, seja na vastidão de oceanos ou em zonas pouco habitadas. Nos grandes centros urbanos, os pixels que já foram pintados mudam a cada minuto – parafraseando Heráclito, ninguém vê duas vezes a mesma cidade. No momento em que este texto é publicado, as caravelas que vi há poucos dias na costa ibérica estão acompanhadas de um gigantesco Godzilla de camiseta verde e amarela que empina uma motocicleta. Gaza, além dos corações, agora é coberta por fotos de jornalistas mortos pelos bombardeios israelenses. A ponte entre Cuba e Estados Unidos ganhou uma extensão a Leste, em direção às Bahamas, ainda incompleta. As bandeiras transsexuais ao redor da casa de J. K. Rowling já superam em muito a área de Aberfeldy, onde fica sua mansão. E o desenho de Bolsonaro preso em Brasília foi acrescido de uma inscrição na cor vermelha que diz: “Fora PT.”



Piauí Folha

Talvez te interessem:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


© Copyright Meu Portal de Notícias 2022. Todos os direitos reservados.