A máfia de malta – revista piauí

Malta é cercada por rochas de calcário e falésias que variam entre tons de branco e ocre. Essas formações geológicas, em contraste com a cristalina água verde-azulada do Mediterrâneo, produzem uma impressionante paisagem, que atrai milhões de turistas à ilha, tão pequena que é possível atravessá-la de carro em cerca de 30 minutos – são apenas 27 km de extensão de ponta a ponta. O interior de Malta não é menos bonito, com seus vales de plantas rasteiras, muito verdes na primavera, como o entorno da aldeia de Bidnija, com cerca de trezentos moradores. Foi nesse vale que Daphne Caruana Galizia escolheu morar, numa casa sem muros. Aos 53 anos, ela era a jornalista mais lida da República de Malta – um arquipélago formado por onze ilhas, das quais apenas Malta, Gozo e Comino são habitadas. O blog de Galizia chegava a ultrapassar 1 milhão de acessos diários, pouco menos que o dobro da própria população de Malta, hoje em torno de 550 mil habitantes.

No dia 16 de outubro de 2017, a jornalista publicou uma misteriosa mensagem em seu blog, às 14h35: “Há bandidos por todos os lados que você olha, agora. A situação é desesperadora.” Devido às perseguições e ameaças que vinha sofrendo havia meses, Galizia praticamente não saía de casa, mas naquele dia precisava ir ao banco para retomar o acesso ao seu dinheiro. Ela havia sido processada por difamação e tivera sua conta bancária congelada depois de revelar em uma reportagem que o então ministro da Economia de Malta, Chris Cardona, havia aproveitado uma viagem de trabalho à Alemanha para visitar um bordel.

Quase no mesmo momento em que a jornalista ligava o carro para ir até o banco, uma câmera de vigilância instalada no Grand Harbour, porto em Valeta, capital de Malta, captou o movimento de uma embarcação chamada O Maia. O piloto parou o barco em alto mar, em um ponto do qual era possível ver a muralha que cerca toda a cidade, e sacou um celular. Depois, enviou um recado via SMS para seu irmão, em que dizia apenas isto: “REL 1 = ON”.

Às 14h58, quando Galizia já estava a certa distância de sua casa, o Peugeot 108 que ela dirigia explodiu. Uma bomba instalada debaixo do assento do motorista – com cerca de 400 gramas de TNT – fora acionada depois da mensagem enviada pelo homem no porto. Às 15h30, ele retirou o chip do celular, lançou ao mar e partiu em seu barco.

Galizia estava trabalhando com seu filho mais velho, Matthew Caruana Galizia, engenheiro de software e também jornalista, na maior investigação de sua carreira. Havia mais de um ano, os dois analisavam as informações confidenciais dos chamados Panamá Papers: 11 milhões de documentos vazados com dados financeiros de mais de 200 mil empresas offshores sediadas no paraíso fiscal caribenho, revelados pelo Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (Icij). Galizia e seu filho descobriram nos documentos que figuras do alto escalão do governo de Malta, ocupado na época pelo Partido Trabalhista, haviam aberto empresas de fachada no Panamá logo depois de ganharem as eleições. A jornalista chegou a publicar em seu blog algumas pistas cifradas sobre o que estava investigando. Disse, por exemplo, que membros do governo estavam usando “chapéus Panamá”. Foi o suficiente para deixá-los furiosos.

As reações pelo assassinato ultrapassaram os poucos quilômetros de extensão da ilha. Alguns meses antes, o portal de notícias europeu Politico classificara Galizia como uma das vinte pessoas que estavam moldando o futuro da Europa. Imediatamente após a morte, editores da BBC, de El País, Le Monde, Financial Times, La Repubblica e Süddeutsche Zeitung enviaram uma carta conjunta para a Comissão Europeia cobrando investigações. Joseph Muscat, primeiro-ministro de Malta na época, publicou no X (então Twitter) que buscaria a justiça.

O enterro de Galizia reuniu milhares de leitores e admiradores da jornalista, que seguiram para um grande protesto em Valeta. Enquanto isso, na noite do dia 16 de outubro de 2017, apoiadores do governo trabalhista comemoraram, publicando emojis nas redes sociais com taças de champanhe e memes de bruxas sendo queimadas.

Apenas em 2019 foi preso o primeiro suspeito. Melvin Theuma, um taxista que trabalhava em um dos pontos mais concorridos da cidade: a torre espelhada de Portomaso, erguida em 2001 para ostentar o desenvolvimento econômico que chegava ao país. Theuma contou à polícia que, para sua surpresa, em 2017 foi procurado pelo dono da torre, o milionário maltês Yorgen Fenech, para quem havia feito apenas algumas corridas em seu táxi.

No encontro, Fenech pediu a Theuma que lhe arrumasse o contato de dois irmãos, Alfred e George Degiorgio, notórios criminosos envolvidos no tráfico de drogas e em contrabando de combustível. A surpresa do taxista foi maior ainda quando Fenech lhe disse que o gabinete do primeiro-ministro de Malta, Joseph Muscat, entraria em contato com ele para fazer uma oferta irrecusável. Fenech mantinha uma relação próxima com Muscat e com algumas das figuras mais importantes do governo.

 Alguns dias depois, Theuma precisou colocar a sua melhor roupa para ir pessoalmente ao Castille, o prédio do Parlamento de Malta, para encontrar o chefe de gabinete do primeiro-ministro, Keith Schembri. Depois de ser entrevistado por dois minutos, ganhou um cargo público de motorista, que lhe renderia mil euros por mês. O taxista aceitou e passou a contar com essa renda extra, embora nunca tenha comparecido ao trabalho.

Desfrutando de uma posição mais confortável e segura, Theuma sentiu-se à vontade para colocar em ação o plano encomendado a ele por Fenech: por 150 mil euros, matar Galizia, com a ajuda dos irmãos Degiorgio – 30 mil seriam pagos de imediato e 120 mil depois do dia 16 de outubro de 2017. “Se eu soubesse de quem se tratava, teria pedido 10 milhões de euros”, confessou, depois de ser preso, George Degiorgio, o responsável por acionar a bomba no carro de Galizia. O irmão dele, Alfred Degiorgio, instalou o explosivo na véspera e vigiou a jornalista no Vale de Bidnija quando o carro explodiu. “Para mim, foi apenas um negócio”, disse George Degiorgio. Além dos dois irmãos, Vince Muscat, que acompanhou o assassinato em outro ponto estratégico, foi identificado alguns meses depois do crime.

Entre 2019 e 2021, foi realizado o primeiro inquérito civil público da história de Malta, para ouvir testemunhas do assassinato de Galizia. Por haver uma forte demanda pública pela apuração do caso, iniciou-se uma investigação preliminar, em que juízes ativos e aposentados coletaram depoimentos de mais de 120 pessoas envolvidas direta ou indiretamente no crime. O relatório final do inquérito, de 447 páginas, atestou que “o Estado teve responsabilidade pelo assassinato, pois criou um clima de impunidade, que incluiu os altos níveis da administração pública”. Também emitiu 28 recomendações de reformas da lei, a fim de garantir o estado de direito e a liberdade de expressão em Malta.

Em 2022, os irmãos Degiorgio foram condenados a quarenta anos de prisão. O taxista Melvin Theuma, intermediário entre o mandante e os operários do crime, está livre, depois de ter firmado um acordo de delação em troca de um indulto presidencial, concedido em 2019 pelo primeiro-ministro Joseph Muscat. Outros dois homens, Robert Agius e Jamie Vella, responsáveis por providenciar o explosivo para o crime, tiveram a sentença mais recente. No dia 10 de junho de 2025, foram condenados à prisão perpétua. Já Yorgen Fenech, acusado de encomendar o assassinato da jornalista, foi preso preventivamente em 2019. Esperou pelo julgamento durante cinco anos, até que, em janeiro de 2025, teve seu pedido de fiança aprovado e agora aguarda em liberdade a publicação da sentença final.

As maiores empresas de jornalismo de Malta são financiadas pelos dois partidos políticos, o Trabalhista e o Nacionalista – fato que Galizia nunca engoliu. Levando em conta que no país os partidos políticos podem ser donos e operadores de comunicação, o Centre for Media Pluralism and Media Freedom classificou em 2022 a atividade jornalística no país como sendo de alto risco. O assassinato de Galizia revelou a face mais cruel desse perigo: quando avançou em suas investigações, recebeu ameaças e retaliações. Quanto mais revelou escândalos de corrupção, maiores foram as tentativas de silenciá-la.

Há outro problema, como diz Emanuel Delia, jornalista maltês e diretor-executivo da Repubblika, ONG de direitos humanos criada em 2019. “Em um país tão pequeno, em algum momento, familiares, amigos e conhecidos de jornalistas acabam sendo afetados por suas reportagens e investigações”, afirma. “Ninguém queria se expor.” Galizia foi corajosa o suficiente para fazê-lo.

Apenas em 1964, Malta, que servia como base naval no Mediterrâneo, se tornou independente da colonização britânica. O Partido Nacionalista venceu as primeiras eleições pós-colonização, em um momento em que a ilha ainda dependia das despesas militares da Grã-Bretanha.

O Partido Trabalhista só chegou à presidência em 1971, tendo que lidar com o fim dos repasses dos ingleses e um país bastante desigual. Liderado então por Dominic Mintoff, o partido pôs em prática na ilha uma espécie de experimento socialista, buscando desenvolver a indústria doméstica, estatizando empresas e aplicando impostos altíssimos e até proibições a importações. Como consequência do fechamento para o exterior, só havia um tipo de chocolate, um tipo de sapato e uma marca de calça jeans nas lojas de Malta. O primeiro governo trabalhista também ficou marcado por seu viés autoritário: proibiu que se falasse abertamente de política, o que os estudantes naturalmente não respeitavam, preservando o livre pensamento nas escolas. 

Em 1984, uma série de protestos se espalhou pelo país, depois que o Partido Trabalhista resolveu fechar todas as escolas ligadas a igrejas, acusando-as de serem elitistas. Galizia tinha 19 anos e morava com os pais. “Ela estava sempre lendo, lendo”, conta à piauí a irmã mais nova da jornalista, Corinne Vella, que com 58 anos atua na Fundação Daphne Caruana Galizia. Mesmo sem ser religiosa, Galizia resolveu participar com a irmã de um desses protestos, durante o qual levou um soco no peito, dado por um policial. Acabou presa. “Era um momento de muita violência, e o governo não tolerava nenhum tipo de oposição”, diz Corinne. A futura jornalista passou dois dias em uma cela de 2 m². Para ser solta, teve que assinar uma carta confessando onze crimes que nunca cometeu.

Apesar da prisão, ela não recuou. Continuou participando de protestos, nos quais chamava atenção pelas roupas coloridas, os brincos grandes e espalhafatosos, os cabelos muito pretos e soltos, e os olhos escuros, como duas grandes azeitonas, destacados por um delineador – tipo de maquiagem que ela usou até o fim da vida.

Quando decidiu se tornar jornalista, Galizia se empenhou para arrumar um posto no Times of Malta, na época o jornal de maior circulação do país. O que conseguiu. Em 1990, aos 25 anos, ela se tornou a primeira mulher a escrever em um jornal de Malta – país até hoje bastante sexista (a venda da pílula do dia seguinte só foi permitida em 2016, por exemplo), embora desde 2021 haja cotas para mulheres na política. “Quem escreve para você: seu pai ou seu marido?”, perguntavam a Galizia no jornal, cuja redação era majoritariamente masculina.

Os jornalistas não assinavam os textos que escreviam – um pouco por costume, um pouco por medo de serem alvos de pressões políticas e assédios policiais. Galizia resolveu assinar os seus – e as primeiras reações não demoraram a aparecer. Em uma noite de 1995, Paul Caruana Galizia, filho mais novo da jornalista, então com 7 anos, acordou no meio da noite na casa do vale de Bidnija, sentindo um forte cheiro de fumaça. Tinham tentado colocar fogo na residência. Alguns meses depois, a família encontrou Messalina, a border collie da casa, com a garganta cortada, em meio a uma poça de sangue. Poucos meses antes, Galizia tinha publicado sua primeira reportagem investigativa, revelando que um general e seu filho estavam envolvidos em um esquema de contrabando de cocaína que saía do Rio de Janeiro, passava pelo Reino Unido e chegava até Malta.

No início dos anos 2000, Malta entrou na rota de migrantes do Norte da África que almejam chegar à Europa. A ilha se tornou um ponto ainda mais interessante para os africanos em 2004, quando Malta passou a fazer parte da União Europeia. Dois anos depois, Galizia chamou a atenção para o modo como as autoridades maltesas vinham tratando os refugiados. Comparou o governo a um “grupo nazista que perpetuava a morte e o racismo, promovendo uma cultura de violência no país”. Logo depois da publicação desse texto, apareceu uma pichação em um muro próximo da casa da jornalista, que dizia: Daphne sucks black cock (Daphne chupa pau preto). Alguns meses depois, quando estava voltando de madrugada para casa, Paul Caruana Galizia viu uma fumaça preta no jardim de sua casa. “Momento estranho para fazer uma fogueira”, ele pensou. Era, na verdade, outra tentativa criminosa de incendiar a sua casa.

Apesar das crescentes retaliações por causa dos seus textos, Galizia decidiu tornar suas publicações ainda mais independentes e provocadoras. “Àquela altura, ela já era uma figura pública de Malta, muito influente por suas colunas no jornal”, conta o jornalista Emanuel Delia. “Todo mundo lia os textos da Daphne.” Ela nunca engoliu o fato de as maiores empresas de jornalismo do país serem financiadas pelos dois partidos políticos, o Nacionalista e o Trabalhista.

Quando ainda trabalhava no Times of Malta, Galizia escreveu um texto sobre a filha do então primeiro-ministro que foi logo vetado, porque ele era um dos conselheiros da empresa que controlava o jornal. Ela resolveu publicar o artigo em outro jornal, o The Independent. Depois de desentendimentos com o editor do Times a respeito do ocorrido, ela foi demitida. Tanto Galizia quando o Independent acabariam sendo processados pelo artigo.

Sem emprego, ela pediu em 2008 que seu filho Matthew criasse para ela um blog na plataforma WordPress, que chamou de Running Commentary. Foi lá que passou a publicar os seus textos afiados, que mesclavam investigação jornalística, opinião e sátira. O blog foi adotado como leitura cotidiana por grande parte da população de Malta, e Galizia se tornou uma personalidade que despertava tanto admiração quanto ódio na ilha.

Malta passava por várias mudanças, e o jornalismo de Galizia também foi se transformando. Quando o líder trabalhista Joseph Muscat se tornou primeiro-ministro, em 2013, aproveitou a popularidade para colocar em prática uma política oposta à do governo de Dominic Mintoff e suas pretensões socialistas. Muscat facilitou a concessão de licenças e incentivos fiscais para novas construções e praticamente zerou os impostos sobre os lucros de empresas estrangeiras que quisessem sediar seus negócios em Malta. Também buscou atrair investimentos estrangeiros, além de beneficiar empresários locais, como o magnata Yorgen Fenech.

No primeiro ano do governo de Muscat, o PIB do país cresceu impressionantes 7,6%, de acordo com o Banco Mundial. No ano seguinte, 9%, enquanto a zona do euro crescia de 1% a 2%. Entre os setores que pilotaram o boom econômico de Malta estavam a construção civil e os jogos de azar online. “O problema, em Malta, é que os empresários do setor de construção civil têm relações muito confortáveis com os governos que estão no poder”, explica Godfrey Baldacchino, professor de sociologia da Universidade de Malta. “Já a indústria dos jogos online é formada por empresas estrangeiras que trazem milhares de empregos para Malta, mas que, por natureza, também facilitam a entrada de enormes fluxos de dinheiro no mercado, não necessariamente de uma origem lícita.”

Além do aquecimento do mercado imobiliário, com construções luxuosas surgindo por toda parte, começaram a pulular no país os prestadores de serviços financeiros. Malta se tornou uma ilha paradisíaca também para a evasão fiscal e a lavagem de dinheiro.

Galizia passou, então, da cobertura de delitos e fraudes locais para investigações sobre o governo e os fluxos transnacionais de dinheiro que passavam por Malta. A jornalista revelou que Muscat, poucos meses depois de ser eleito, em 2013, concedeu licença para a operação em Malta de um banco privado, o Pilatus Bank, que tinha entre seus clientes os filhos do ex-ditador angolano José Eduardo dos Santos e o presidente Ilham Aliyev, que governa o Azerbaijão desde 2003. Ficou claro para Galizia que esse banco tinha duas únicas finalidades: servir à corrupção e à lavagem de dinheiro. Em 2018, depois das revelações feitas pela jornalista, foi preso o iraniano Ali Sadr Hasheminejad, sócio e fundador do Pilatus – e o banco teve que fechar as portas no país.

Nenhuma revelação feita pela jornalista, entretanto, foi capaz de abalar a popularidade rampante de Muscat e dos trabalhistas no poder – até que Galizia e seu filho Matthew começaram a investigar os documentos vazados pelo Panamá Papers, em 2016. Os dois jornalistas perceberam que estavam prestes a desbaratar as fraudes e a corrupção no círculo mais próximo do primeiro-ministro.

A primeira revelação veio com um conjunto de e-mails que mostravam que Keith Schembri, chefe de gabinete do primeiro-ministro, e Konrad Mizzi, ministro de Energia, contrataram os mesmos advogados e contadores para abrir suas empresas no paraíso fiscal caribenho nos dias 9 e 15 de julho de 2013 – cerca de três meses depois da vitória do Partido Trabalhista nas eleições. Contas no Panamá não são abertas para receber qualquer ninharia. Suspeitava-se de que ambos haviam recebido, em conjunto, pelo menos 2 milhões de euros.

As investigações de Galizia a partir dos Panamá Papers avançaram pelo ano de 2017. “Matt, você pode checar para mim uma empresa sediada nos Emirados Árabes Unidos chamada 17 Black?”, pediu ela a seu filho, naquele ano. Os documentos indicavam que essa empresa seria a responsável por enviar a propina para as contas panamenhas de Schembri e Mizzi. Mais: Galizia descobriu que a propina tinha alguma relação com um grande projeto do governo, a usina termelétrica de Delimara, no Sul do país. Em fevereiro de 2017, publicou os primeiros indícios no seu blog: “17 Black: uma empresa sediada em Dubai”, com fotos de Muscat, Mizzi e Schembri.

Na época, a energia elétrica de Malta era produzida na Sicília e chegava ao país por meio de cabos oceânicos. A nova termelétrica era a grande promessa do governo Muscat. O primeiro-ministro queria transformar a produção de energia em Delimara, que era baseada em petróleo, em uma produção energética mais limpa e barata, com gás natural liquefeito importado. Nas contas de Muscat isso reduziria os custos de energia em até 25% para o bolso dos malteses.

Já nos primeiros meses de governo, ele começou a tirar do papel a sua nova estação de energia e apresentou um PowerPoint mostrando que custaria exatamente 376 milhões de euros. Galizia desconfiou do valor muito detalhado e publicou no seu blog: “Trezentos e setenta e SEIS milhões? Isso é um custo real. E, se eles já sabiam qual era o custo real do projeto, então já tinham encontrado um fornecedor que lhes havia passado esse valor.” Ela deduziu que o governo sabia quem forneceria a energia da estação, antes mesmo de acontecer o processo de licitação. A concorrência para reformar e gerenciar o fornecimento de energia em Malta foi vencida, dias depois, pela ElectroGas, um consórcio formado por empresas locais, pela Siemens e pela estatal de petróleo do Azerbaijão. Yorgen Fenech, dono de hotéis e cassinos, se tornou diretor e acionista do consórcio.

Em 2018, uma apuração feita pela Auditoria-Geral de Malta revelou que, de fato, houvera uma série de distorções no processo de licitação da termelétrica de Delimara em favorecimento do consórcio vencedor. Galizia suspeitava que o consórcio tivesse relação com o pagamento de propinas a Schembri e Mizzi, mas não conseguiu decifrar o caminho percorrido pelo dinheiro.

Ainda em 2017, a jornalista publicou no blog outra suspeita: que uma empresa panamenha chamada Egrant, que operava por meio de uma conta no Pilatus Bank, tinha como beneficiária final Michelle Muscat, mulher do primeiro-ministro. Joseph e Michelle Muscat processaram Galizia por difamação. (O processo, que não foi retirado após o assassinato, acabou sendo herdado pelos filhos da jornalista.) Após a morte de Galizia, o chefe da Unidade de Análise de Inteligência Financeira de Malta foi demitido, depois de declarar que poderia descobrir, em até três dias, quem era o proprietário da Egrant. Uma investigação criminal de 2021 dissociou a empresa dos Muscat, mas até hoje não se sabe quem é o seu proprietário.

Jornalistas estrangeiros que também investigavam os Panamá Papers foram parceiros da empreitada de Galizia. Enquanto isso, os jornais locais repercutiram os escândalos revelados por ela com alguma desconfiança. O Times of Malta publicou as denúncias, creditando-as à “controversa blogueira Daphne Caruana Galizia”.

Começaram a aparecer alguns cartazes nas ruas da capital Valeta. Shame on you, dizia um deles, com fotos dos trabalhistas envolvidos nos esquemas de corrupção. Era o último ano do mandato de Joseph Muscat. O próximo pleito estava previsto para abril de 2018, mas, devido aos sinais de insatisfação da população, o primeiro-ministro resolveu convocar eleições gerais com dez meses de antecedência.

No dia 5 de junho de 2017, Muscat foi reeleito com uma maioria estreita, mas ainda desfrutando de uma posição confortável, com 55% das cadeiras do Parlamento maltês ocupadas por seu partido, o Trabalhista. Após a reeleição, quando um repórter perguntou ao primeiro-ministro se as revelações dos Panamá Papers afetavam o seu governo, ele respondeu que, na verdade, “a reputação de Malta era manchada por Bidnija”, referindo-se ao vilarejo onde vivia Galizia.

Até 2013, Daphne Galizia foi processada por difamação quinze vezes. Daquele ano, que é também o primeiro ano do governo Muscat, até o ano da morte da jornalista (2017), o assédio judicial sofrido por ela escalou exponencialmente. Foram mais de cinquenta processos, movidos, na maioria, por autoridades do Partido Trabalhista (apenas quatro vieram do Partido Nacionalista). “Coletar evidências para a defesa, ir aos tribunais e contratar advogados passou a fazer parte da nossa rotina, exaurindo nossos recursos e desviando o foco das investigações dos escândalos revelados por minha mãe”, conta Matthew Galizia à piauí.

Além do assédio judicial, o aparato de comunicação oficial foi mobilizado para atacar Galizia. O deputado trabalhista Glenn Bedingfield, alocado no departamento de comunicação do governo, resolveu reagir ao blog da jornalista, criando o seu próprio (segundo ele, “para se defender”). Até o momento do assassinato, de acordo com um levantamento feito por advogados da família Galizia, o blog do deputado tinha mais de mil publicações mencionando o nome “Daphne”. Em seguida, as palavras mais citadas eram: “bruxa” e “mentirosa”. Em depoimento durante o inquérito público que investigou o assassinato da jornalista, quando questionado sobre o volume dos ataques, Bedingfield respondeu: “Caruana Galizia comentava em público sobre todos os assuntos […] [Meu blog] Era uma reação igual e oposta.” O programa de televisão Tagħna t-Tnejn (Nossa segunda-feira, em maltês), que mesclava notícias, opinião e comédia, da TV One, a emissora oficial do Partido Trabalhista, chegou a retratar Galizia como uma bruxa. Aos poucos, o apelido de “bruxa de Bidnija” foi se espalhando entre os apoiadores dos trabalhistas para designar a jornalista.

Com as denúncias dos Panamá Papers, o assédio digital a Galizia se intensificou. “Centenas de grupos fechados no Facebook, administrados por membros do Partido Trabalhista, foram mobilizados para atacá-la”, conta Caroline Muscat, jornalista e editora-chefe do The Shift, portal de notícias criado três semanas depois do assassinato da jornalista. “Daphne trabalhava sozinha. Em um país onde o jornalismo é dominado pelos partidos, mesmo com os ataques, poucos conseguiam fazer um trabalho investigativo de maneira independente tão bem quanto ela”, diz Caroline Muscat (apesar do sobrenome, a editora-chefe não tem parentesco com o primeiro-ministro).

O primeiro trabalho do portal The Shift foi justamente monitorar as campanhas coordenadas de difamação de Galizia. Joseph Muscat e pelo menos oito dos seus ministros, incluindo Keith Schembri e Konrad Mizzi, faziam parte desses grupos e interagiam com as publicações. Os trolls viraram perseguições, e por isso Galizia evitava sair de casa. “As pessoas tiravam fotos dela e publicavam com ofensas. Ela também foi perseguida algumas vezes quando estava fazendo caminhadas ou visitando seus pais”, lembra sua irmã Corinne Vella.

Um ano depois da morte de Galizia foi formado um consórcio internacional de jornalistas para dar continuidade às suas investigações e conseguir chegar ao mandante do crime. “No dia seguinte ao assassinato, liguei para Matthew Galizia e conectamos 54 jornalistas de dezoito veículos para continuar as denúncias que ela estava fazendo naquele momento”, conta à piauí Laurent Richard, diretor-executivo da Forbbiden Stories, organização responsável por continuar as apurações de jornalistas que foram assassinados. A primeira iniciativa seria tentar descobrir quem estava por trás da 17 Black, a empresa suspeita de depositar propinas para Keith Schembri, chefe do gabinete do primeiro-ministro, e Konrad Mizzi, ministro de Energia. “Essa foi uma das últimas perguntas feitas por Daphne antes de sua morte”, diz Richard.

Jornalistas do The Guardian, The New York Times, Le Monde, Süddeutsche Zeitung, Reuters, entre outros, inclusive da imprensa local, como The Times of Malta, conseguiram, enfim, em 2018, encaixar a última peça do quebra-cabeça: a empresa que possivelmente depositara a propina para Mizzi e Schembri no Panamá era a 17 Black, do empresário Yorgen Fenech, que se tornara diretor do consórcio que venceu a licitação para o fornecimento de energia. 

Às duas da manhã do dia 20 de novembro de 2019, Fenech embarcou no seu iate Gio, com o objetivo de navegar até Pozzallo, na Itália, e depois seguir de carro para Nice, onde encontraria seu irmão e também herdeiro dos negócios da família. Dez minutos depois da partida, o iate foi interceptado pela polícia, e Fenech foi preso. O plano de fuga fora preparado às pressas por Fenech, logo depois de ele descobrir que o taxista Melvin Theuma havia sido identificado como um dos assassinos de Galizia. Em menos de seis meses, era a segunda passagem de Fenech pela prisão. Em julho do mesmo ano, ele havia sido detido pela polícia dos Estados Unidos no aeroporto de Houston, por estar cheirando cocaína no banheiro do avião.

Fenech foi preso preventivamente em novembro de 2019 e desde então seus advogados apresentaram dezesseis pedidos de libertação sob fiança, todos recusados. Pedidos de indulto presidencial em troca de informações sobre o assassinato também não foram para frente. Essas tentativas, apesar de mal-sucedidas, retardaram o tempo de apreciação nos tribunais de uma sentença para Fenech. Até que em janeiro deste ano o 17º pedido de fiança foi aprovado, mediante um depósito de 80 mil euros e uma garantia de 120 mil euros. Dessa vez, o juiz ficou de mãos atadas, pois em Malta existe um limite legal de trinta meses para um indivíduo ficar em prisão preventiva. Como Fenech já passara desse limite, o pedido feito pelos advogados foi aprovado. O principal suspeito de ser o mandante do assassinato de Galizia aguardará o julgamento em liberdade provisória, mediante algumas condições: teve o passaporte apreendido, não pode ter contato com os demais investigados, nem avançar mais de 50 metros a partir do litoral de Malta.

Para a família de Galizia, a aprovação do pedido de fiança de Fenech representa mais uma falha do sistema de justiça de Malta. “A culpa pelos assassinos terem sido libertados sob fiança sem qualquer data de julgamento à vista cabe ao primeiro-ministro e ao ministro da Justiça. Eles tiveram cinco anos para consertar o sistema e não fizeram nada”, publicou o filho Matthew em seus perfis nas redes sociais.

Depois da prisão do Fenech em 2019, Schembri e Mizzi renunciaram a seus postos no governo. Em 2020, uma série de protestos nas ruas pediu justiça por Galizia – e foi então a vez do primeiro-ministro Joseph Muscat renunciar. Muscat, Schembri e Mizzi negam qualquer envolvimento no assassinato da jornalista. Em 2021, Schembri foi preso por apenas uma noite, suspeito de lavagem de dinheiro e fraudes relacionadas a pagamentos da sua conta no Panamá. Apenas no início deste ano, uma investigação concluiu que Schembri e Mizzi, além de Fenech e sócios de uma empresa estatal azerbaijana, foram os responsáveis e irão responder na Justiça por lavagem de dinheiro, associação criminosa e tráfico de influência pelos pagamentos da 17 Black, por meio de contas secretas no Panamá.

A aposentada Ann Demarco gostava de ler o blog de Galizia todo dia pela manhã, antes de ir para o trabalho em um banco. O seu escritório ficava em uma esquina da Republic Street, principal avenida de Valeta. Uma semana depois do assassinato da jornalista, Demarco, hoje com 64 anos, percebeu um movimento atípico na Republic Street, em frente ao Tribunal de Justiça. Era uma passeata em homenagem a Galizia. Os manifestantes deixavam flores e cartazes na base do monumento The Great Siege (O grande cerco), esculpido em bronze no século passado para representar a Fé, a Virtude e a Civilização.

 “Com o passar dos dias, percebi que, apesar de outras pessoas terem começado a deixar flores e velas no mesmo monumento para Daphne, alguém sempre limpava tudo logo em seguida”, conta Demarco. Intrigada, ela percebeu que a remoção dos objetos era feita por apoiadores do Partido Trabalhista. Onze meses depois, descobriu que a ordem de retirada era uma decisão oficial do então ministro da Justiça, Owen Bonnici, sob a alegação de que precisava proteger o monumento histórico. “Quando soube disso, fui eu que passei a levar flores, velas e cartazes todos os dias”, ela diz. “Algumas vezes, funcionários públicos recolhiam tudo mais de uma vez por dia, por ordem do governo, então eu tinha que levar mais para repor.”

Foi assim que, entre setembro de 2018 e dezembro de 2019, Demarco passou a carregar, todos os dias, cartazes, velas e flores na mochila para garantir que, no monumento, sempre houvesse alguma homenagem a Galizia. Em alguns cartazes, ela imprimia trechos das publicações da jornalista no blog. Em outros, pedia por justiça e o julgamento do mandante do crime.

Em setembro de 2018, um ano depois do assassinato da jornalista, Demarco fez sua visita diária ao monumento com um grupo de pessoas que criaram a organização Occupy Justice Malta para pressionar por justiça no caso Galizia. Perceberam que o local havia sido isolado por um tecido preto, para impedir a aproximação a menos de 2 metros de distância. O pretexto do governo daquela vez era uma obra de restauração do The Great Siege. “Tive que ser criativa e colocar os protestos ao redor do tecido que impedia a gente de continuar o nosso memorial”, recorda Demarco.

Somente em 2020, a Suprema Corte do país entendeu que a ordem de limpeza diária do monumento era um ataque à liberdade de expressão – e as homenagens de Demarco e de um grupo cada vez maior de leitores e admiradores de Daphne Galizia foram deixadas em paz pelo governo. Hoje, a aposentada e o grupo de ativistas garantem a preservação do memorial pelo menos uma vez por semana, além de fazerem protestos e encontros mensais no mesmo monumento.

Na vigília de fevereiro de 2024, Demarco tinha pelo menos um motivo para comemorar. No dia 27 daquele mês, o Parlamento Europeu aprovou por absoluta maioria (546 votos a favor, 47 votos contrários e 31 abstenções) uma nova diretriz que foi chamada de Lei de Daphne, em homenagem a Galizia, voltada para proteger jornalistas de abusos judiciais. Depois de seis anos de campanha da família Galizia no Parlamento Europeu, a legislação anti-Slapp (Strategic lawsuits against public participation, ou ações judiciais estratégicas contra a participação pública) pretende garantir proteções mínimas a jornalistas e defensores dos direitos humanos do assédio judicial no território europeu. Slapps são ações judiciais abusivas ou infundadas, que visam sobrecarregar jornalistas, defensores e ativistas com os custos do processo, em última instância, interrompendo os seus trabalhos de interesse público. Galizia ilustra perfeitamente o tipo de proteção necessária, com os 48 processos judiciais que acumulou (42 ainda ativos e sendo respondidos por seus filhos).  Em julho de 2024, a diretriz da União Europeia se tornou lei em Malta. Embora o país hoje conte com uma lei anti-Slapp, o Parlamento Maltês optou por adotar apenas os critérios mínimos de proteção.

Apesar das reações recentes, Caroline Muscat, do portal The Shift News, avalia que pouca coisa mudou para quem faz jornalismo hoje em Malta. “Tenho mais de quarenta casos na Justiça. Como faço muitos pedidos de acesso à informação sobre contratos e pagamentos do governo, depois de receber negativas, entro com recursos, e o governo passou a transformar esses recursos em processos judiciais contra mim”, conta a jornalista. “As táticas mudaram, mas, para responder a todos esses casos, ainda preciso investir muito dinheiro e tempo, o que desvia a atenção do trabalho.” Em 2022, The Shift News precisou fazer uma campanha de financiamento coletivo a fim de arrecadar 24 mil euros para cobrir os custos com advogados.

Apesar de ser economista de formação, Paul Caruana Galizia, filho de Galizia, mudou de profissão em 2018 e também passou a atuar como jornalista. Como sua mãe, especializou-se em casos de corrupção e crimes financeiros. Para ele, a Lei de Daphne é um bom primeiro passo, mas é só parte da solução. “A forma mais efetiva de proteger jornalistas é levando a sério suas investigações. Minha mãe revelou casos muito graves de corrupção, e nada aconteceu”, diz ele à piauí. “A polícia não investigou nada, nem o Judiciário. É assim que uma guerra se desenvolve entre o jornalista, que é o lado mais vulnerável, e a pessoa envolvida no escândalo, que normalmente detém muito poder.”

O mais preocupante, para Paul Galizia, é que as recomendações do inquérito público que investigou as condições do assassinato de Daphne Galizia não foram colocadas em prática até hoje. Para que novas tragédias não voltem a acontecer em Malta, o relatório final do inquérito recomendou três tipos de reformas: o fortalecimento do estado de direito, o combate à cultura de impunidade e da corrupção, e a proteção de jornalistas.

Até agora, há poucos sinais de avanço em Malta. Em março de 2024, o Grupo de Estados Contra a Corrupção (Greco) conduziu uma avaliação independente sobre a situação do país. Chegou à conclusão que “Malta não apresenta conformidade com as recomendações previamente emitidas pelo grupo”, sendo que “nove delas não apresentaram nenhum avanço”. Entre as quais, a garantia de independência da polícia nas investigações, a regulamentação de atividades paralelas por membros do governo e o monitoramento das declarações de bens das autoridades e detentores de cargos públicos.

Pergunto a Paul Galizia como ele se sente sete anos depois do assassinato que mudou a sua vida. Ele me diz: “É um sentimento estranho. É como se eu estivesse vivendo em um único dia desde então. Tanta coisa aconteceu e mudou nossas vidas de forma tão dramática, e tão rapidamente, que é como se tivesse acontecido ontem.” No fim das contas, foi o jornalismo que mudou e continua mudando o curso da história da família Galizia – e também da história de Malta.



Piauí Folha

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